Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Hora de mudar

A mudança exigida pela nação é de métodos e critérios de governo. Não uma simples troca de pessoas e siglas partidárias. Muito menos uma tumultuada corrida a posições que se vagam. Nesta hora crucial de transição e esperança, Brasília não se pode transformar numa estação de “trens de alegria” que se cruzem com favorecidos por poderosos que saem ou que chegam.

A missão conferida a Tancredo Neves não foi a de dar atendimento a um longo jejum de ambições pessoais. Mas a de restaurar as instituições democráticas, debelar a inflação, retomar o desenvolvimento e assegurar uma distribuição eqüitativa da renda nacional.

O povo brasileiro está impaciente e inconformado com suas condições de vida e por isso decidiu-se a acelerar o processo de extinção dos poderes arbitrários que o constrangiam a aceitá-los. Quando as multidões ocuparam as praças, manifestaram os seus anseios de responsabilidade e dignidade na condução dos negócios públicos, bem como de liberdade, emprego e justiça para todos, resumindo num advérbio o caráter inadiável dessas exigências: Já!

Recorde-se que, ao se tornar inviável a obtenção de eleições diretas por meios pacíficos, abriram-se duas alternativas: a de se aceitar um mandato-tampão e a de se correr o risco da votação pelo Colégio Eleitoral. A primeira foi repudiada como ultrajante. Adotada a segunda, verificou-se a vitória de Tancredo Neves por imposição da sociedade, através das grandes manifestações populares e do pronunciamento de entidades representativas dos mais diversos setores e regiões do país. Dessa maneira, a legitimidade do mandato do novo presidente ultrapassou as limitações do processo eleitoral em vigor, fundamentando-se inequivocamente na vontade soberana do povo, da qual emana todo o poder.

Infelizmente certas correntes políticas estão tentando distorcer os fatos. De um lado, os autores da desastrada proposta do mandato-tampão, que incentivaram o presidente Figueiredo a dilatar o seu período de governo por um prazo de dois anos, atrevem-se agora a pretender reduzir o governo do presidente Tancredo Neves ao mesmo prazo, atormentados pela idéia fixa de satisfazer aos seus inconfessáveis interesses. A resposta do presidente eleito foi fulminante: “Só uma Constituinte — esta que vamos realizar em 1986 — terá poderes para reduzir o mandato do presidente da República.”

De outro lado, determinadas figuras do PMDB, depois de terem concordado em liberar o candidato do partido de quaisquer compromissos a fim de transformá-lo no candidato de toda a nação, agiram, neste momento, no sentido de limitar a ação do presidente eleito ao âmbito de ajustes partidários. Tancredo Neves também já respondeu a essas manobras afirmando: “Nós não chegamos ao governo para fazer uma política de terra arrasada em relação a adversários. Onde houver a capacidade, o valor, a probidade e a competência, esse cidadão será convocado qualquer que seja a sua coloração política.”

O presidente é homem de partido e naturalmente, ao lado de Ulysses Guimarães, Franco Montoro, José Bicha, Affonso Camargo e outros ilustres companheiros, procurará assegurar ao PMDB a predominância em seu ministério e condições futuras para se consolidar nas eleições de 1986. Simultaneamente saberá mobilizar para o governo a mesma colaboração que recebeu na campanha eleitoral do PFL e das demais correntes que consagraram o seu nome. Mas o seu compromisso fundamental é com o povo, que exigiu o fim dos procedimentos políticos e administrativos vigentes.

Nesse sentido, o continuísmo a ser evitado é o de se restringir o acesso à administração exclusivamente a correligionários, com base no critério de “fidelidade partidária” que, se foi repudiado pelo país na luta eleitoral, muito menos pode prevalecer na implantação do primeiro governo da Nova República.

Tancredo Neves já deixou claro que não irá transferir as altas responsabilidades do seu cargo a um grupo de quatro ou cinco conselheiros que, reunidos em gabinetes fechados, pretendam surpreender a nação com “pacotes” de programas ou de ministros.

E isso que alguns líderes partidários parecem desconhecer. Quando, por exemplo, comentando a indicação de Francisco Dornelles para o ministério, pretendem esquecer a sua comprovada competência no exercício de elevadas funções na Fazenda e na chefia de delegações brasileiras em importantes negociações comerciais e financeiras com a maioria dos países do Ocidente e do mundo socialista, para levantar a hipótese de veto a seu nome por ausência de inscrição partidária ou risco de manutenção de um modelo econômico, incidem em dois graves equívocos.

O primeiro é o de não atentar em que a época de “sistemas” cujas recomendações condicionavam a ação presidencial está encerrada. E também já está no passado o hábito de se exigir em atestados ideológicos ou partidários para o exercício de cargos públicos.

O segundo é o de não perceber que a nação está interessada, não em experimentar novos modelos teóricos, mas em que sejam adotadas medidas práticas e imediatas que restabeleçam o saneamento financeiro e imprimam racionalidade aos programas de investimento, criando-se um clima de austeridade e credibilidade que permita ao Brasil negociar adequadamente os seus compromissos internacionais.

Quando Tancredo Neves conduz o PMDB ao governo, recebendo um crédito de confiança de toda a nação, que se amplia com as extraordinárias manifestações de apreço dos diversos países que visita, não tem sentido que lhe falte a colaboração integral dos próprios correligionários. O momento é de assumir responsabilidades. Afastar-se delas não é divergir. E desertar.

Roberto Marinho. O Globo, 31/08/1985