Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Nem golpe nem vacilações

O Globo, 25/06/1989, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO agravamento da crise econômica adquiriu uma súbita aceleração, inquietando dirigentes empresariais e sindicais, presidentes dos partidos, analistas políticos e os diversos candidatos à presidência.

Difundiu-se a consciência de que a eleição de novembro poderia ser “inviabilizada” por desordens e conseqüentes tentativas de golpe, sob alegações de garantia da tranqüilidade pública.

Como medidas de prevenção despontaram sugestões de mudança imediata do regime, através de emendas apresentadas no Congresso para implantação do parlamentarismo. Simultaneamente, surgiram planos de emergência a serem ajustados em pactos sociais e impostos discricionariamente ao governo.

Tais propostas refletem um estado de perturbação emocional. Ao invés de tranqüilizar o país, poderão prejudicar um indispensável entendimento para se conter a expansão inflacionária dentro de limites que assegurem a estabilidade das instituições, nessa fase de transição. Recente artigo de Jânio Quadros tornou bem claro que não se pode alterar o regime sem uma prévia consulta popular.

Quanto à idéia de “se indicar pelo Congresso um superministro extraordinário da economia”, para dar execução a um pacto com base em amplo e profundo programa de medidas econômicas e sociais a ser imposto ao presidente Sarney nos últimos meses de sua administração e ao futuro presidente no primeiro semestre do seu governo, trata-se de um preocupante sintoma de alienação.

A respeito dessa sugestão, o presidente da Comissão de Economia da Câmara já se manifestou considerando-a uma ‘‘bobagem’’, poiso presidente Sarney teria de renunciar e ‘‘estaria implantado de fato o parlamentarismo’’.

Todavia, nesses encontros, não se pode desmerecer a demonstração de espírito público que vêm de evidenciar os representantes das agremiações partidárias e das entidades de classe.

A atitude de procurar uma solução para a crise mediante diálogo entre responsáveis pelas instituições civis mostra que estamos distanciados da época em que somente se ia em busca da tranqüilidade social no âmbito da segurança.

Temos de convir, no entanto, em que no auge da campanha eleitoral, empenhados os candidatos em apresentar os seus planos de médio e longo alcances, expondo suas divergências doutrinárias, a hora não é adequada para pactos. Nada impede, porém, que a gravidade da situação justifique uma trégua entre os adversários, para que se possa propiciar ao governo condições de reajustar-se nas suas equipes e nas suas linhas de ação, a fim de resgatar sua credibilidade e pôr em prática medidas delimitadas pelo objetivo realista de deter a violenta escalada dos preços.

Duas exigências são fundamentais.

Com relação ao Congresso, cabe-lhe manter a disposição de examinar e debater, com prioridade e isenção, as medidas que o Executivo venha a lhe encaminhar, visando à estabilização do patamar inflacionário e dos mercados de câmbio e de capitais, acompanhadas de propostas de austeridade nos gastos públicos e nos ajustamentos nas áreas salarial e previdenciária.

Ao Executivo cumpre proclamar formalmente a sua neutralidade na sucessão presidencial. E aceitar as críticas e contribuições do Congresso às suas propostas, inclusive assegurando maior transparência às negociações da dívida externa e as medidas em exame para o reajustamento do endividamento interno. Nesse sentido, torna-se indispensável que os auxiliares diretos do presidente assumam a tarefa de firmar uma ponte com os congressistas, no cumprimento de um dever que se sobrepõe a qualquer preocupação de caráter partidário. No instante em que se estabelecer essa atmosfera de mútua colaboração e diálogo, a nação sentirá que a classe política retomou o seu padrão de dignidade e de confiabilidade. Com isso, sem vacilações, poderão ficar definitivamente sepultados quaisquer temores de fechamento das fábricas ou das urnas, ou seja, de retrocesso no desenvolvimento e na democratização. Confirmaremos a certeza de que, há cem anos, não se proclamou neste país uma republiqueta, mas uma autêntica república.

 

Roberto Marinho. O Globo, 25/06/1989