Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


O bastão de comando

O Globo, 25/06/1985, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO Congresso e os partidos não estão em condições de dar ao presidente da República respaldo político e credibilidade. Porque é justamente isso o que lhes está faltando.

Tudo o que se disse, há pouco tempo, sobre a atuação da mesa do senado presidida por Moacyr Daila não contrasta com o procedimento dos atuais dirigentes daquela casa, onde os “trens da alegria” continuam impunemente a circular.

Na Câmara, presidida pelo congressista mais ilustre e representativo da Nova República — embora tenham sido aprovados projetos que restabelecem padrões fundamentais do estado de direito e aperfeiçoamentos na legislação partidária e eleitoral —, intensificaram-se práticas fraudulentas, desagregando-se as bancadas que compõem a Aliança Democrática, por desavenças na disputa de nomeações e divergências ideológicas.

A luta de candidatos pelas legendas nas próximas eleições municipais vem redundando na fragmentação dos partidos, evidenciando-se para a opinião pública que os interesses de natureza fisiológica continuam a prevalecer sobre doutrinas e programas.

Em face dessa fragilidade das lideranças parlamentares e dos comandos partidários, cresceram as responsabilidades do presidente José Sarney. Para ele é que se estão voltando as diversas facções que se digladiam no âmbito do Congresso e no seio dos partidos.

Dessa maneira, o presidente, além de receber para seminários técnicos e cientistas que se reúnem com autoridades militares e econômicas e representantes de classe para discutir problemas administrativos, vê crescerem os grupos de direita e de esquerda, filiados aos mesmos partidos, que sobem a rampa do Planalto para lhe apresentar propostas absolutamente divergentes.

Em suma, a consolidação da Nova República passou a repousar basicamente na atuação do Executivo, O presidente, em condições que não são exatamente as mesmas em que Tancredo Neves fez as suas opções, tem hoje a responsabilidade histórica de definir diretrizes e, consequentemente, a equipe que deverá auxiliá-lo fiel e coerentemente na sua implantação, bem como as correntes partidárias que irão constituir a sua base parlamentar e sua sustentação perante a opinião pública.

José Sarney, que conquistou a confiança nacional na hora crucial de sua posse, marcada pela agonia de Tancredo Neves, saberá conduzir-se com a mesma serenidade, coragem e consciência democrática neste momento em que a Nova República corre o risco de repetir o destino do seu fundador, isto é, desaparecer antes de se implantar.

Está em suas mãos não apenas a renovação da Aliança Democrática, mas a sorte dos ideais e esperanças de retomada da democracia e do desenvolvimento do país.

Cessou a fase de formulações vagas. As demandas sociais e as exigências de reativação da economia, na medida em que se possam compatibilizar com o combate à inflação e a competente renegociação da dívida externa, precisam ter respostas claras e nítidas.

O presidente não é obrigado a acertar. Tanto nas suas opções sobre pessoas ou programas, como nos seus êxitos ou insucessos eventuais, deverá continuar a ter a seu lado a maioria do PMDB, cuja atuação cívica, no seu período de oposição, foi modelar. E também a Frente Liberal que, embora se haja acumpliciado para inviabilizar a adoção dos dois turnos a fim de atender aos seus interesses eleitorais, vem reiterando os seus propósitos de manter viva a Aliança.

Tampouco faltarão ao presidente o apoio e a compreensão da opinião pública, que aguarda a sua definitiva palavra de comando.

Roberto Marinho. O Globo, 25/06/1985