Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


O primeiro desafio

O Globo, 24/02/1985, p. 1. Arquivo / Agência O GloboTancredo Neves, na formação do ministério, mantém- se coerente com o fato de que não foi eleito por seu partido, mas por uma aliança partidária. O candidato natural do PMDB era o presidente Ulysses Guimarães que, numa elevada demonstração de espírito público, renunciou às suas aspirações para apoiar o então governador de Minas Gerais, cujo nome atraía as preferências dos dissidentes do PDS, liderados por Aureliano, Sarney, Marco Maciel e Antônio Carlos Magalhães, além da maioria dos governadores do Nordeste, convencidos de que a abertura política exigia uma mudança de métodos e critérios de governo.

Franco Montoro, José Richa, Affonso Camargo e demais líderes do partido oposicionista seguiram o exemplo de Ulysses e dessa maneira formou-se a Aliança Democrática. O apoio da opinião pública a essa conciliação evidenciou- se nas grandes concentrações populares que deram cunho autenticamente democrático ao movimento que conduziu Tancredo Neves à presidência da República.

Durante a campanha realizaram-se tentativas de frustrações da Aliança através de manobras da mesa do Senado fundamentadas na espúria exigência da “fidelidade partidária”, as quais foram denunciadas pela imprensa independente e repudiadas pelo Judiciário. Naquela ocasião, as chefias das forças armadas não se deixaram envolver pelos autores dos expedientes golpistas e o SNI manteve-se na postura regular de órgão de informações.

Tancredo Neves acompanhou minuciosamente todos esses acontecimentos e soube transmitir à nação a confiança numa transição pacífica para o regime de plenitude democrática que afinal concretizou-se na alegria cívica que em 15 de janeiro inundou de esperança todos os recantos do país.

São fatos de ontem que parecem esquecidos por alguns líderes que se dispuseram a vetar a participação no futuro governo de qualquer cidadão que houvesse exercido função política ou administrativa nos últimos vinte anos. Depois de terem aclamado a indicação do ex-presidente do PDS, José Sarney, para a vice-presidência da República e, após a eleição, terem procurado ilustres comandantes militares que se destacaram por serviços prestados à Revolução de 1964 a fim de patrocinar a sua inclusão no ministério, vieram a público tentando impedir a indicação de elementos civis, com base no princípio da “fidelidade partidária”.

Esses mesmos elementos passaram a exigir a criação de novos ministérios — não para atender especificamente a determinados problemas sociais ou econômicos de maior gravidade — mas apenas para serem preenchidos por correligionários que “ficaram na reserva”. Simultaneamente tomaram a iniciativa de convidar eminentes homens de negócios para cargos públicos cujo âmbito de atuação abrange as áreas de interesse de seus patrimônios empresariais. E todas essas pretensões procuraram justificar-se sob a alegação de que “é preciso mudar’’.

Ora, a prática de se criarem ministérios para compor situações pessoais não irá evidentemente constituir uma inovação da Nova República. E cabe lembrar que escândalos como o da Sunamam somente se tornaram possíveis porque na mesa dos entendimentos entre o governo e a iniciativa privada não se distinguiram com nitidez as posições de elementos responsáveis pela condução das negociações.

Tancredo Neves vem administrando com habilidade esse jogo de pressões. A esse respeito declarou: ‘‘Nenhum dos grupos políticos que me honraram com seu apoio sugeriu qualquer contraprestação. Por conseguinte eu me elejo com liberdade para organizar o ministério. Acontece, porém, que somos uma democracia. E um governo democrático é um governo de sustentação política.”

Em conseqüência fixou os critérios para a seleção ministerial: “Primeiro, o critério da probidade; segundo, o da competência; terceiro, o da composição das forças políticas que me apoiaram; e quarto, o critério federativo.”

A nação, quando depositou as suas esperanças no candidato da Aliança Democrática, não estava diretamente interessada na participação dos partidos no futuro ministério. E claro que reconhecia a relevância das agremiações partidárias e da formação de novos líderes políticos. Mas acima de tudo exigia mudanças.

O presidente eleito, consciente desse imperativo, vem afirmando que “o importante não é o debate pela composição ministerial; é a fixação dos rumos da mudança”.

Quais são esses rumos?

A resposta a essa indagação dispensa grupos de trabalho empenhados na sua formulação, pois quando as multidões ocuparam as praças de todas as capitais do país foram claras na manifestação de seus anseios: restauração das instituições, contenção da inflação e retomada do desenvolvimento. O atendimento desses objetivos não será alcançado sem que se restaure um clima de responsabilidade e dignidade que possibilite o imediato saneamento financeiro e a correção dos programas de investimento, viabilizando-nos ajustar adequadamente os nossos compromissos internacionais.

O ministério da aliança não poderá ser uma hábil composição de interesses eleitorais voltados para os pleitos de 1986. Funções estritamente técnicas, como as da direção do Banco do Brasil, do Banco Central, da Cacex, da Caixa Econômica, do IBC e da Petrobrás, não podem estar subordinadas a critérios partidários, mas fundamentalmente ao da comprovada competência. Aguarda-se, portanto, a apresentação de uma equipe capaz de enfrentar os problemas cruciais da inflação e da dívida externa, respondendo de imediato ao desafio da contenção do déficit público, da moralização dos costumes e da implantação de liberdade, emprego e justiça para todos.

Roberto Marinho. O Globo, 24/02/1985