Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Para enfrentar a crise, nova estrutura, já!

A CPI da corrupção apontou irregularidades que teriam ocorrido na emissão de decretos do Executivo, reconhecendo, contudo, que a própria mesa do Senado efetivou atos com base nos mesmos. E também denunciou que as verbas oficiais não são habitualmente distribuídas de modo ordenado, submetendo-se a pressões de políticos, admitindo todavia que, entre estes, alinham-se alguns de seus membros e inúmeros representantes do povo.

Conclui-se que, para manter um mínimo de coerência, o insólito pedido de impeachment do presidente teria de ser antecipado por uma proposta de renúncia dos congressistas envolvidos em tais práticas. Infelizmente esses fatos são indícios de lamentável falta de seriedade no âmbito dos poderes da República, cuja continuidade vem de se retratar no envio de três mensagens orçamentárias, refletindo oscilações de orientação que se agravaram com a apresentação de um “pacote fiscal” que abrange medidas anticonstitucionais, sendo que na Comissão de Orçamento os critérios políticos acabaram prevalecendo sobre os argumentos técnicos.

Demonstra-se que a atual estrutura administrativa do Executivo, com dezenas de ministérios que se digladiam em todos os escalões, propondo decretos que se contradizem, não pode ser mantida.

Também no trato das matérias que lhe são atinentes, o Congresso não se pode conformar com a inépcia que o impossibilita de honrar as responsabilidades que a si mesmo outorgou, nos termos da nova Carta.

No sentido de corrigir essa situação, o presidente Sarney e o deputado Ulysses Guimarães dispõem de reservas de credibilidade e espírito público para assumir os papéis que a história lhes reservou de condutores da transição para a plenitude do estado de direito. A tarefa exige sejam postas de lado eventuais desavenças e que cada um tome decisões que não podem ser repartidas com auxiliares diretos ou meros áulicos. O presidente terá de dar o primeiro passo. Surgem prenúncios de que se acha consciente da necessidade de uma básica reforma administrativa do Estado como condição preliminar para a restauração de uma atmosfera de ordem e trabalho.

Neste momento, ao seu lado, nas reuniões do pacote social, estão expressivas lideranças empresariais e sindicais, sendo que em documento assinado por 26 entidades representativas da sociedade, incluindo a ABI e a OAB, ficou reiterado o apoio ao combate à inflação, com a retomada do desenvolvimento. Também os dirigentes dos diversos partidos políticos se reuniram para apresentar sugestões de medidas governamentais de emergência. São demonstrações de que o país, embora atravessando dificuldades que exigem a mobilização de todos os seus recursos materiais e espirituais, acha-se disposto a congregá-los, mas não suporta adiamentos, pois os fatos se agravam diariamente, podendo-se chegar a uma escalada irreversível.

Há que agir com presteza, mas sem temores exagerados. E, acima de tudo, sem aceitar a postura de medo assumida por certas correntes conservadoras ante a iminência das eleições de 89. Um regime que se assusta com a ida do povo às urnas não pode ser considerado uma autêntica democracia.

Tampouco o presidente Sarney, apesar de amarguras que eventualmente haja acumulado em virtude de lhe ter cabido governar o Brasil numa hora crucial de sua história, deve se deixar contagiar por atitudes de pessimismo pelo fato de estarem emergindo novas forças sociais cujo despreparo para o exercício do poder se vem rapidamente evidenciando à opinião pública.

Cumpre reconhecer que o presidente recebeu uma pesada herança dc equívocos e déficits do regime anterior, além de um hiperministério que Tancredo Neves improvisou no primeiro instante da abertura e que certamente já teria corrigido. Sarney não pode transferir esses legados ao seu sucessor. Terá de assumir a decisão sozinho. Mas sabe que, no cumprimento da mesma, contará com a sua recuperação perante o povo que, em outros momentos, não lhe faltou.

 

Roberto Marinho. O Globo, 12/12/1988