Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Uma nação sem crédito

Sob muitos pontos de vista, as nações são como pessoas; a elas, segundo se comportam suas lideranças, o mundo atribui créditos e débitos de caráter e confiança.

Sendo assim, o Brasil de hoje corre sério risco de voltar a ter abalado o seu crédito internacional; na visão mais generosa, será tido como um país acometido de grave confusão, caracterizada por atos contraditórios em relação aos seus mais evidentes interesses.

Num quadro em que a solução de grande número dos problemas nacionais em boa parte depende de nossa imagem no exterior, há razões de sobra para preocupação.

Podemos citar, por exemplo, a pretendida anistia a dívidas contraídas na vigência do Plano Cruzado — objeto, aliás, de definitivo esclarecimento por parte do ministro da Fazenda, na última segunda-feira. Para qualquer observador externo, por menos que conheça o Brasil, é óbvio que se trata de uma benesse catastrófica, que se choca frontalmente com a política de austeridade ora executada pelas autoridades econômicas.

Quem não percebe que a anistia terá efeito multiplicador, criando direito de reivindicação no Judiciário para todos os empresários que pagaram seus débitos — sem falar na hipótese mais assustadora de que outras vítimas da correção monetária pleiteiem privilégio igual? Certamente no estrangeiro medidas do gênero só podem causar estranheza e decepção.

Outro sinal dessa aparente crise de identidade está na realização, em Brasília, de um “encontro nacional sobre a dívida externa”. Instalado ontem com o aval da presença do presidente da Constituinte, sob o patrocínio de entidades de conhecida orientação radical (como CUT e CGT), ele surge sob o peso do mais escancarado oportunismo demagógico.

Alguém duvida de que tal encontro, realizado na Câmara dos Deputados, contribuirá para alimentar temores e desconfianças? E que poderá prejudicar aquele que é sem sombra de dúvida o melhor acordo que poderíamos fechar este ano?

Como se não bastasse, a Constituinte chegou ao extremo, também ontem, de aprovar uma auditoria da dívida externa, decisão que claramente não tem outro propósito neste momento se não o de criar novos embaraços à ação do Executivo. De olho nas urnas, a palavra de ordem dessas correntes parece ser: atrapalhar.

Deve ser lembrado ainda que o governo, num gesto de impecável lucidez, acaba de instituir uma política industrial cujo eixo principal é o estreitamento de laços com o capital externo — no que, quase tardiamente, imitamos a maioria das nações desenvolvidas ou com notável grau de desenvolvimento. Pois, ao mesmo tempo, sobrevivem no projeto de Constituição itens de orientação oposta, isolacionistas e xenófobos.

Estamos dizendo ao mundo, simultaneamente, que desejamos e não desejamos o investimento externo; que queremos e não queremos promover o crescimento; que nos dispomos e não nos dispomos a um controle austero e responsável de nossa economia.

Essa é uma imagem de perturbação, que aponta para a desagregação. O indivíduo que, por fraqueza de caráter, aparenta não saber o que pretende nem para onde vai merece pena, quando não desprezo. Igualmente, as nações destituídas de solidariedade interna nas horas de crise perdem a confiança da comunidade internacional — e são condenadas à solidão no seu percurso para o caos.

 

Roberto Marinho. O Globo, 22/6/1988