Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre educação, cultura e televisão, as realizações da Fundação Roberto Marinho, entre outros assuntos.


A Rede Globo e a educação

           A UNESCO exibiu hoje, para os delegados à sua assembléia geral, o programa brasileiro “Sítio do Picapau Amarelo”, uma produção da Rede Globo, a mais importante cadeia de televisão da América Latina, O sr. poderia explicar qual a proposta desse programa?

            Roberto Marinho — O “Sítio do Picapau Amarelo” é um programa infanto-juvenil, realizado com o formato de novela, que vem sendo produzido há cerca de três anos. Trata-se de uma adaptação para televisão da obra infantil de Monteiro Lobato. Escritor de múltiplos talentos — contista famoso, fazendeiro, editor e pioneiro da luta pela exploração de petróleo brasileiro — Monteiro Lobato em seus livros infantis mesclava a fantasia com a realidade, transmitindo a seus pequenos leitores mensagens de amor e fraternidade, sem apelos à violência ou a discriminação contra minorias raciais ou religiosas. Nas suas histórias, esses sentimentos sempre presentes costumam se mesclar a importantes ensinamentos sobre as conquistas científicas e tecnológicas do homem. E essa é a proposta básica do “Sítio do Picapau Amarelo”: divertir e instruir. Sem ser um programa didático, a série contém em cada episódio numerosas informações culturais e científicas, estimulando a capacidade criativa do telespectador e preparando-o para atingir mais rapidamente os estágios mais avançados do conhecimento. O Ministério da Educação e Cultura do Brasil realizou uma aferição do aproveitamento dessas informações entre os alunos de escolas públicas, através de telepostos instalados pelas emissoras da TV Educativa e constatou que os alunos que acompanham o “Sítio do Picapau Amarelo” acusam melhores índices de escolaridade que os demais.

           

           Por que a Rede Globo decidiu produzir esse programa com o formato de novela e não de série com episódios isolados?

 

            Roberto Marinho — Porque a novela, que não é senão o antigo folhetim adaptado às exigências e peculiaridades do veículo eletrônico, mantém presa a atenção do telespectador à ação que se desenvolve dia a dia durante um período pré-determinado. No caso do “Sítio”, cada aventura se desenrola em vinte capítulos, o que permite explorar as aventuras dos diversos personagens de maneira divertida e com certa dose de suspense passando simultaneamente às informações culturais necessárias. Por exemplo: os personagens vencem o tempo e voltam à Roma antiga, encontram Dom Quixote na Espanha, Shakespeare na Inglaterra, mas não se limitam a manter esses encontros, pois ao longo da narrativa o programa questiona esses personagens e o tipo de vida então existente.

 

            Alguma história do “Sítio do Picapau Amarelo” já se desenrolou na França?

 

            Roberto Marinho — Os heróis do “Sítio” já estiveram com La Fontaine e conheceram vários personagens de suas fábulas. A mais importante história “francesa”, no entanto, será produzida no próximo ano. Falo da maravilhosa história de Santos Dumont, o inventor brasileiro que tanto amou a França e que pela França é reconhecido como o inventor da dirigibilidade dos balões e do próprio avião. Essa aventura terá locações em Paris, mostrando Santos Dumont ao contornar a Torre Eiffel com seu frágil dirigível e voando no 14-Bis no campo da Bagatelle.

           

            O sr. gostaria de mencionar outras iniciativas das suas organizações nas áreas de educação e cultura?

 

            Roberto Marinho — Justamente por serem muitas as nossas iniciativas nessas áreas, resolvemos criar, em 1978, a Fundação Roberto Marinho, entidade sem fins lucrativos, que se dedica, em suas primeiras alternativas de trabalho, a atividades no campo da educação e cultura.

            A Fundação Roberto Marinho é conseqüência natural de uma longa trajetória de trabalho das Organizações Globo voltado para o interesse comunitário. E sua filosofia básica é de atuação junto às comunidades brasileiras, onde o governo e a iniciativa privada encontram dificuldades para solucionar problemas que afetam o bem-estar comum.

 

            Especificamente no campo da educação, que tipo de trabalho tem desenvolvido a Fundação Roberto Marinho?

 

            Roberto Marinho — Para explicar esse trabalho, é necessário explicar, antes, como se processa o fenômeno da educação no Brasil, onde o ingresso à universidade é precedido, necessariamente, por 11 anos de estudos regulares, ao final dos quais o estudante recebe o certificado de conclusão do 2° grau. Acontece que, principalmente por motivos de ordem econômica, grande parcela de estudantes interrompe seus estudos ao final do oitavo ano escolar, com cerca de 15 anos de idade, quase sempre para ingressar, em desvantagem, no mercado de trabalho. Em face dessa realidade, o governo instituiu os exames supletivos de 2° grau, que permitem aos maiores de 21 anos, quando aprovados, receberem o certificado de conclusão do 2° grau.

            E justamente para atender a essa clientela que não dispõe de tempo ou recursos financeiros para freqüentar escolas de ensino supletivo, a Fundação Roberto Marinho, em convênio com outra fundação, criou o Telecurso 2° Grau. O Telecurso se baseia na utilização de multimeios, com aulas diárias pela TV apoiadas por fascículos semanais.

            O Telecurso 2° Grau é transmitido por 29 emissoras do Sistema Globo de Televisão e 10 emissoras educativas, através das quais atinge 3.600 municípios, de todos os Estados e territórios brasileiros, constituindo-se na única opção de conclusão do 2° grau para as populações de pequenos centros e áreas rurais, onde, além do problema econômico, há o problema da inexistência de escolas ou cursos.

            Ainda na área da educação, a Fundação Roberto Marinho implantou um Programa de Iniciação Esportiva para crianças e jovens de comunidades economicamente desfavorecidas. Além de transformar o tempo vago dessas crianças em horas de lazer orientado, o Programa de Iniciação Esportiva proporciona, paralelamente, melhores condições de saúde e alimentação a esses jovens.

            Criamos também um programa para o setor de esporte de alto nível, cujo objetivo é oferecer oportunidades de desenvolvimento a atletas brasileiros em condições de competir internacionalmente.

 

            E as iniciativas na área cultural?

 

            Roberto Marinho — Nesse campo, o principal objetivo da Fundação Roberto Marinho é contribuir para a prevenção do patrimônio histórico e artístico brasileiro, levando sempre em consideração as manifestações culturais que o constituem e as comunidades que o cercam. Temos trabalhado, juntamente com outras entidades privadas e governamentais, na restauração de monumentos e obras de arte e lançamos, através das emissoras de televisão da Rede Globo, uma vasta campanha de conscientização da população, no sentido de despertá-la para a importância de preservar- o nosso patrimônio histórico.

            Paralelamente a esse trabalho, a Fundação Roberto Marinho tem promovido e apoiado encontros, debates e conferências nas cidades históricas brasileiras, com ampla participação comunitária e o apoio de técnicos, buscando conciliar as exigências de desenvolvimento e progresso dessas cidades com a necessidade de preservar seu patrimônio histórico e cultural.

            Nesse campo, as atividades da Fundação Roberto Marinho têm-se diversificado bastante, com publicações de livros e projetos de criação de centros culturais, onde possam se desenvolver quaisquer manifestações que reflitam o passado ou o momento cultural brasileiro.

 

Roberto Marinho. Entrevista a um grupo de jornalistas na Unesco, 27/11/1979