Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre educação, cultura e televisão, as realizações da Fundação Roberto Marinho, entre outros assuntos.


Realizações da Fundação Roberto Marinho

Sinto-me profundamente honrado pela resolução desse egrégio Conselho que, em seu alto critério de julgamento, decidiu assinalar o seu apoio às diretrizes e atividades da Fundação Roberto Marinho, convidando-me para dizer algumas palavras a respeito de seus objetivos e realizações.

As primeiras ideias relativas à Fundação me ocorreram em 1977, quando se iniciava o processo de abertura política e havia quem alegasse que o povo brasileiro não se achava preparado para o pleno exercício do regime democrático. Enquanto a sociedade, por seus segmentos mais representativos, exigia uma pariticipação maior nas decisões nacionais, questionava-se a conveniência desse debate mais amplo dos programas de governo, sob a justificativa de que a maioria da nação se encontrava em precário estágio cultural, cujo aperfeiçoamento só poderia vir a resultar do progresso econômico do país.

Naquele momento, adverti-me de que o desenvolvimento espiritual não é uma simples decorrência do desenvolvimento econômico, mas implica a utilização de valores e energias que transcendem as dimensões materiais da sociedade, podendo ser mobilizados por uma ação cultural ampla e diversificada, que não pode ficar restrita ao sistema regular de ensino. Considerei também que do mesmo modo que há um mínimo de condições de vida a serem asseguradas à pessoa humana, incluindo a alimentação, o vestuário, a habitação e a assistência médica, há também um mínimo de assistência espiritual que não lhe pode ser negada. E no atendimento dessas exigências que integram os direitos fundamentais do homem, não apenas ao Estado, mas à sociedade como um todo, cabe uma parcela inalienável de responsabilidades a serem assumidas. Por conseguinte, simultaneamente à luta pela conquista dos direitos políticos, pela preservação do patrimônio econômico do país e por sua mais justa distribuição, impõe-se a nação ocupar plenamente a sua área de atuação em favor da preservação de seu patrimônio moral, que abrange as suas realizações históricas, as suas criações artísticas e a evolução intelectual de seu povo.

Assim pensando, na qualidade de dirigente das Organizações Globo, julguei que me incumbia utilizar o poder de comunicação de suas mídias impressa e eletrônica para veicular mensagens e programas tendentes a estimular ações educacionais e atividades comunitárias, propondo experiências pioneiras que servissem como modelos e que induzissem não apenas à criação de novas estruturas, mas principalmente ao emprego racional de todos os recursos e meios existentes.

Essa noção de que a atividade jornalística não se pode desvincular do interesse pela comunidade, visando a colaborar na solução de seus problemas e na concretização de suas aspirações, me foi transmitida por meu pai, Irineu Marinho, cujas lições jamais esqueço, não apenas pela identificação de idéias e pelo amor que nos uniu, mas também pelo fato de que a experiência me vem sempre confirmando tudo aquilo que a sua intuição me antecipou.

Há tempos, lendo Jean François Revel, impressionei-me com as suas observações sobre o dilema que todo jornalista enfrenta ao ter de decidir entre o dever de opinar e o de informar. Enquanto a opinião implica a liberdade que pode eventualmente conduzir a uma atitude tendenciosa, a informação tem que ser rigorosamente exata. Todavia, como alcançar a exatidão numa época em que as próprias ciências naturais se conformam com a relatividade de seus resultados? Nessas condições, quando as ciências chamadas exatas se satisfazem com aproximações, as ciências humanas como a história — da qual o jornalismo faz parte como patrulha de reconhecimento — não podem ter a pretensão de atingir a verdade. Mesmo assim, porém, torna-se inegável que o jornalista, na sua humilde coleta dos fatos, assume um compromisso de lealdade com os seus leitores, mediante o qual a imprensa se constitui na primeira frente de defesa dos seus direitos. Ao meditar sobre essas considerações, acrescentei para mim mesmo que não basta ao homem de imprensa se colocar à frente da comunidade a que serve. Impõe- se ficar ao seu lado, compartilhando de seus anseios e de suas realizações. Tem sido essa a posição tradicional de O Globo que, juntamente com as notícias e comentários de suas edições, sempre se caracterizou por iniciativas em benefício da coletividade através de concursos de pintura e arquitetura, promoções esportivas e seleções de valores que abrangem desde a escolha do operário-padrão à concessão do Globo de Ouro para as empresas de maior índice de exportação.

Foi em nossa redação, em 11 de julho de 1940, que se fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira. Nossos serviços de promoção desenvolvem programas que se desdobram desde o Projeto Aquarius, que reúne centenas de milhares de pessoas, na Quinta da Boa Vista e em outros locais do Rio e do país, à organização das solenidades de recepção que marcaram a visita de João Paulo II ao nosso país.

Compreende-se assim que a Fundação Roberto Marinho veio a constituir mais uma etapa dessa seqüência de empreendimentos.

Sediada no Rio de Janeiro, desde os seus primeiros dias integrou-se na vida carioca, no sentido de desenvolver um programa comunitário visando a atingir, nos setores economicamente menos favorecidos, a mocidade carente sem acesso a clubes, atraindo-a para a prática de atividades esportivas. Para isso, foram criados vários núcleos na Cidade de Deus, em Realengo, na Cidade dos Meninos, em Caxias e Campo Grande, na quadra de escola de samba da Mangueira, cada um dos quais dispondo de monitores capazes de dar orientação teórica e treinamento em vôlei, basquete, atletismo e natação. Anualmente, passaram a ser promovidos jogos internúcleos, reunindo milhares de crianças, sendo que nos Jogos Comunitários de 1980 se inscreveram mais de 17 mil jovens de até 16 anos. Em seguida, esse programa foi ampliado para São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Alagoas.

Ao mesmo tempo, estimulou-se a prática do xadrez, considerando-se que se trata de uma forma de aprimorar o raciocínio, a criatividade, o espírito de equipe, disciplina e honestidade. Monitores instalaram núcleos em diversos colégios e clubes, preparando jovens de 10 a 17 anos, sendo que das centenas de enxadristas assim formados, surgiram seleções que já participaram de campeonatos nacionais, pan- americanos e mundiais.

Por acordo de intercâmbio com a Organização dos Estados Americanos, a Fundação Roberto Marinho vem proporcionando condições de aperfeiçoamento a atletas cujas marcas lhes permitem competir internacionalmente, fornecendo-lhes treinamento exterior, promovendo a vinda de técnicos estrangeiros e a importação de material sem similar nacional. Professores de natação e saltos ornamentais norte-americanos, israelenses e mexicanos vieram ao Brasil, realizando palestras em vários centros universitários, sugerindo normas de treinamento que passaram a ser adotadas pelos grandes clubes e também nos Pólos de Interiorização da Natação criados em várias cidades do Estado do Rio. Tendo em vista as Olimpíadas de Los Angeles de 1984, a Fundação, em convênios com as confederações de Natação e Atletismo, vem selecionando valores em condições de assegurar posições significativas no ranking mundial.

Enquanto se realizava essa convocação da mocidade para o esporte, constatou-se que a maioria se mostrava sem qualificação profissional e instrução elementar. A fim de procurar remediar tal situação, implantou-se um programa de preparação de artesanato, cujo aprendizado é rápido e pode logo se refletir na melhoria da renda familiar.

Todavia, a Fundação não podia restringir a sua atividade educacional a promoções de emergência. Considerando que em 1978, de cada mil crianças que ingressavam na primeira série do 1º grau somente 68 chegariam à oitava e última serie e, bem assim, que o Anuário Estatístico de 1980 acusava a existência de mais de 12 milhões de analfabetos, decidiu-se pela criação de Telecursos.

A decisão de se começar com o 2º grau se baseou em que não era o setor mais crítico do sistema escolar e, portanto, os eventuais desacertos da experiência não teriam consequências muito danosas. Felizmente, o êxito da iniciativa superou as nossas expectativas mais otimistas, pois desde a sua criação, conforme apurou a Fundação Carlos Chagas, aumentou o índice geral de aprovação nos exames supletivos oficiais, sendo que o Banco Mundial, em relatório de 1980, reconheceu o valor dessa experiência brasileira que já preparou mais de 500 mil alunos. As aulas, com duração de 15 minutos, se distribuem em três fases, cada uma se estendendo por 24 semanas e totalizando 432 programas, estando assegurada a distribuição de material impresso para o seu devido acompanhamento.

Em 1981 iniciou-se o Telecurso 1º grau, com apoio do Ministério da Educação e Cultura e da Universidade de Brasília. As aulas, emitidas de segunda a sexta-feira, são repetidas integralmente no sábado e domingo. Distribuem-se também por três fases, cada uma durando 24 semanas e totalizando 407 programas.

Segundo os dados mais recentes, a audiência do Telecurso 2º grau é de 2 milhões 484 mil pessoas e a do Telecurso 1º grau, de 2 milhões 200 mil pessoas. Em maio de 1982, começaram a ser instalados Núcleos Avançados de Centros de Estudos Supletivos, que deverão ficar distribuídos por todos os municípios do Brasil, além daqueles que serão instalados em empresas e organizações privadas e públicas. Cada núcleo possuirá um televisor, rádio, gravador e demais utensílios para atender a cem alunos, com um orientador preparado pela Fundação.

Simultaneamente a essas realizações, a Fundação Roberto Marinho tem desenvolvido Campanhas de Preservação da Memória Nacional, promovendo a restauração de monumentos que integram o patrimônio histórico e artístico da nação. Entre as obras concluídas, destacam-se a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Serro; o Solar Grandjean de Montigny, no Rio; a Capela de Utinga, no Rio Grande do Norte; o Museu de Tiradentes, a sede da Lira Sanjoanense e o Teatro de Sabará, em Minas; a Igreja de São Gonçalo Amarante, no Rio Grande do Norte.

Estão em andamento as restaurações da Cadeia de Tiradentes e a sede da Orquestra Ramalho, em Tiradentes; a Casa do Noviciado da Ordem do Carmo e a Casa da Cidade e Solar dos Elias, em Ouro Preto; a Casa dos Banhos de D. João VI, na Praia do Caju, no Rio; o Convento do Carmo em Angra dos Reis; e a Capela de Nossa Senhora de Montserrate, no Rio. Como se vê, as atividades da Fundação alcançaram as mais diversas regiões do país em que se faça necessário resguardar o nosso patrimônio cultural.

Todos os problemas relativos à conveniência de se harmonizar e conciliar a preservação dos monumentos históricos com os imperativos do desenvolvimento urbano das áreas em que se acham situados, inclusive o cuidado de se respeitar nas novas construções as suas características paisagísticas e arquitetônicas, têm sido objeto de encontros e seminários nos quais a Fundação Roberto Marinho, em convênios com a Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com as secretarias estaduais, com as prefeituras e com o Instituto de Arquitetos do Brasil, vem firmando normas de ação para cuja efetivação as comunidades locais têm sido sempre chamadas a participar. Nesse sentido, podemos apresentar como exemplos de conjugação de esforços o I Encontro da Praça da Estação, em Belo Horizonte, no qual se estudou a transformação daquele logradouro sem prejuízo de suas características tradicionais; e também o Projeto de Ouro Preto que, após uma longa e tenaz luta junto à UNESCO, com o apoio do meu inolvidável amigo embaixador Paulo Carneiro, conseguimos desse maravilhoso senegalês, embaixador Amadou Mathar M’Bow, diretor geral daquele organismo internacional, que a cidade fosse tombada, como monumento mundial.

Além de visar à manutenção do seu extraordinário conjunto arquitetônico, a atuação da Fundação inclui a construção do terminal rodoviário, do novo Hospital da Santa Casa, do novo sistema de tratamento de água, que não deverá prejudicar as construções e o calçamento histórico e o Horto Botânico que abrange uma área de 80 mil metros quadrados, na qual estão sendo realizadas obras para evitar deslizamentos e desabamentos, dando-se assim a Ouro Preto um novo parque de lazer.

Em Parati, a Fundação envidou esforços no sentido de serem baixadas normas de zoneamento e parcelamento do solo que não possibilitem a destruição do Bairro Histórico, ao mesmo tempo em que se estudam alterações no tráfego de veículos cuja vibração possa ameaçar as suas construções.

No âmbito da literatura, da música, da pintura, da arquitetura e da escultura, a Fundação Roberto Marinho se vem empenhando em campanhas destinadas a despertar o interesse pelo desenvolvimento de todas essas atividades artísticas. Considerando o declínio do hábito da leitura na faixa etária correspondente ao 1º grau, acertou-se com a Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil o Projeto Ciranda de Livros que se destina a editar cem títulos de autores e ilustradores brasileiros, apoiado por uma campanha de televisão estimulando a sua difusão. Em colaboração com a Capes, Coordenação do Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior, o Serpro e o Conselho Nacional de Pesquisas, implantou-se o Programa de Comutação Bibliográfica, que se destina a colocar à disposição da comunidade intelectual e educacional o acervo de 3 mil bibliotecas, fornecendo cópias de fontes a requisitantes de todo o país.

Por convênio com a Funarte, iniciou-se um programa de apoio às cinco orquestras da região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais, fundadas há 200 anos, mediante reformas de suas sedes, preservação e recuperação de instrumentos e arquivos de peças litúrgicas de compositores mineiros dos séculos XVII e XVIII.

A organização e microfilmagem do arquivo de Djanira e a catalogação do acervo de Portinari, em colaboração com a Funarte e o Finep são empreendimentos a que a Fundação Roberto Marinho se vem dedicando no âmbito da pintura, ao mesmo tempo em que atua junto à prefeitura do Rio de Janeiro na instalação do Corredor Cultural do centro da cidade, e colabora com o governo da Bahia na preservação dos monumentos históricos de Salvador e com o governo do Paraná no Projeto de Despoluição Visual de Curitiba.

Outras iniciativas culturais que se destacam no programa da Fundação incluem as edições de livros e discos destinados a difundir peças de compositores brasileiros; monumentos; manifestações de arte popular tipicamente nacional, como a escultura de carrancas que adornam os barcos do São Francisco; repercussões nas canções populares de acontecimentos históricos como as revoluções de 1930 e 1932; o inventário do acervo cultural farmacêutico do país; o levantamento do material etnográfico existente na Europa sobre o Brasil, levado por missionários ou expedições científicas que nos visitaram.

Juntamente com o Conselho Nacional de Pesquisas, a Fundação instituiu o Prêmio Jovem Cientista para pesquisadores brasileiros de até 30 anos. E em convênio com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, vem produzindo material audiovisual sobre animais em extinção na fauna brasileira, não somente para estudo, como também para campanhas de conscientização da sociedade em defesa das reservas biológicas de Poço das Antas, Atol das Rocas, Trombetas e Parque Nacional das Emas.

A atual sede da Fundação Roberto Marinho é a Casa do Bispo, cuja restauração devolveu à cidade a última testemunha do século XVIII naquela região urbana, projeto do brigadeiro Alpoim, arquiteto do Palácio dos Vice-Reis na Praça XV e do Palácio dos Governadores em Ouro Preto.

Ao fazer essa singela relação de projetos e empreendimentos da Fundação Roberto Marinho, desejo menos destacar a oportunidade de sua iniciativa do que a resposta imediata, ampla e generosa da comunidade brasileira, tanto no setor público, como nas entidades e empresas privadas, e, mais do que isso, de todos os segmentos da população quando convocada para trazer a sua participação ou se utilizar dos nossos serviços.

Ressalto essa manifestação nacional como uma prova de que o país possui uma capacidade de realização que não pode ser medida apenas pela estimativa de seus índices econômicos. Uma nação que, em momento de extrema dificuldade e crise em suas atividades de produção e em suas condições de vida, encontra forças para atender a uma mobilização no sentido de seu aprimoramento cultural, não pode deixar de merecer um crédito de confiança não somente em sua sobrevivência, mas em seu destino de grandeza.

E quando esse egrégio Conselho assume a decisão de trazer a sua elevada aprovação aos esforços que vimos empreendendo, podemos, sem orgulho mas com sinceridade, concluir que a Fundação Roberto Marinho deixou de ser uma experiência em prol do patrimônio espiritual do país, para se transformar numa parcela, embora modesta e incipiente, desse patrimônio.

 

Roberto Marinho. Discurso no Conselho Federal de Cultura, 02/08/1983