Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre educação, cultura e televisão, as realizações da Fundação Roberto Marinho, entre outros assuntos.


Uma televisão de raízes nacionais

O convite da Fundação Joaquim Nabuco chegou-me às mãos juntamente com Anais de seminários anteriores, cuja leitura me deu a oportunidade de apreciar alguns estudos e debates que me proporcionam um melhor entendimento do esforço admirável que vem sendo realizado nesta casa, em defesa dos valores tropicais, dentro dos princípios científicos estabelecidos por Gilberto Freyre.

A visão de Gilberto, interpretando a experiência portuguesa de colonização como um exemplo singular de adaptação da cultura européia ao trópico, refletida em nossos padrões característicos de habitação, vestuário, alimentação, combate às moléstias, formas de produção econômica e convívio humano, não representou apenas um novo paradigma de investigação sociológica, mas constituiu uma tomada de consciência da realidade brasileira, à luz da qual temos de equacionar os nossos problemas, se queremos enfrentá-los com objetividade e eficiência, bem como orientar as nossas decisões político-sociais, se almejamos projetar um futuro coerente com as autênticas raízes da nacionalidade.

Não tenho a veleidade de pretender analisar os aspectos científicos da obra gilbertiana, cujas dimensões, a partir do impacto de Casa grande & senzala, abrangem hoje todos os centros universitários do mundo, considerada pela Sorbonne como uma das “grandes contribuições para o universo das ciências do homem”. Cabe-me apenas reconhecer que devo à sua influência muito do entusiasmo com que me dedico à preservação do patrimônio histórico e artístico do país, não só através das atividades da Fundação Roberto Marinho, mas nos meus próprios hábitos pessoais de vida, bastando ressaltar a circunstância de que a minha residência no Rio de Janeiro, como Gilberto bem sabe, é uma tentativa de reconstituição da Casa de Megaípe, que a todos deslumbrou no primeiro contato que tiveram com esse extraordinário livro, marco da literatura e da sociologia brasileira, que é Casa grande & senzala.

Essa realização foi possível graças à sensibilidade e à cultura do meu velho e querido amigo engenheiro César de Meio e Cunha, que conseguiu transformar um canto de floresta, com árvores centenárias, no fundo da Rua Cosme Velho, e quase aos pés da estátua do Cristo Redentor, num ponto de evocação e de beleza do passado brasileiro.

Nessas condições, ao fixar alguns elementos sobre o tema que me foi recomendado — informações, comunicação e atualidade brasileira — não pude fugir a uma reflexão preliminar sobre os efeitos que poderá estar trazendo, para o desenvolvimento cultural do país, a expansão dos modernos sistemas de transmissão de palavras e imagens, especificamente no que tange ao resguardo dos nossos padrões tradicionais de civilização.

Seja-me permitido, a esse respeito, prestar um depoimento com base na minha experiência jornalística e empresarial. A partir da década de 50, quando me adverti de que a imprensa ingressava na era eletrônica, empenhei-me no sentido de mobilizar a mais moderna maquinaria, capaz de assegurar níveis elevados de áudio, vídeo e transmissão, visando a apropriar técnicas formais e de conteúdo, a fim de vir a criar, com o apoio de uma equipe de profissionais maravilhosos, uma linguagem própria de televisão no Brasil, hoje conhecida como “padrão Globo”. Diariamente falamos para cerca de setenta milhões de brasileiros, levando-lhes a imagem do mundo atual; e levamos a imagem do Brasil de hoje a mais de oitenta países com programas a serviço da divulgação do que é genuinamente brasileiro, muitos dos quais premiados por prestigiosas instituições e academias de artes, para não falar na UNESCO e no UNICEF, da ONU.

Atentos ao fato de que o Brasil ocupa o sexto lugar no mundo ocidental entre os países com maior número de televisores, apenas precedido por Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Japão e França — o que aumenta a nossa responsabilidade — preocupamo-nos com os segmentos carentes de nossa população, notadamente a infância e a juventude, e nesse sentido desenvolvemos programas educacionais, no âmbito do ensino de 1º e 2º graus, aos cuidados da Fundação Roberto Marinho, insistindo em despertar a conscientização da realidade nacional, assim como nos dedicarmos à reconstituição dos monumentos históricos e artísticos de todo o país.

Com referência à nossa programação artístico-cultural, estudamos e lançamos senados nacionais, todos produzidos pelos nossos próprios profissionais, mantendo a preocupação de difundir autores e roteiros brasileiros, a começar pelo “Sítio do Picapau Amarelo”, com adaptação da obra de Monteiro Lobato. E também dos maiores escritores brasileiros, como Machado de Assis e vários outros, o último dos quais foi João Cabral de Melo Neto, que teve o seu trabalho Morte e Vida Severina premiado por uma grande instituição nacional.

Esse esforço possibilitou que no Segundo Encontro Mundial de Comunicação, realizado em Acapulco, no México, em julho de 1979, ficassem consignados elementos e dados comparativos da mais alta significação. Assim registra- se que naquela época, entre dez programas de maior audiência da Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Canadá e México, cinco programas eram de origem estrangeira. No Brasil, no mesmo período, apenas dois programas entre dez, da Rede Globo, eram importados. Oito eram criados e produzidos por brasileiros.

Ficou também assinalado que, já em 1973, a TV-Guide, publicação americana que tem uma circulação de 14 milhões de exemplares por semana, numa reportagem sobre um dia na televisão mundial, informava que os espectadores do mundo inteiro estavam assistindo a um programa de origem americana, destacando-se expressamente que “as coisas no Brasil são um pouco diferentes”, pois no mesmo horário, “todo o público brasileiro está sintonizado com O bem-amado, que em termos de novela é uma descrição extremamente real da vida interior do país”.

Como me dirijo a um ambiente universitário, permito- me acrescentar a citação de um trabalho publicado pela Universidade de Harvard, em 1977, da autoria dos professores Elhiu Katz e George Wedell, intitulado A te1evisão no Terceiro Mundo, em que está dito o seguinte: “No Brasil, a TV Globo, a principal rede do país, contratou alguns dos melhores autores nacionais para criar histórias, em forma de novela. Várias lições temos que aprender aqui. A primeira é que essa forma parece ser a mais popular e eficiente que a televisão mundial já encontrou. A novela, que é exibida no último horário da noite, tem tratado seriamente dos problemas sociais que o povo enfrenta no dia-a-dia, ao invés de contentar-se com dramas escapistas. A segunda lição é que o Brasil aceitou o desafio e acabou com a idéia de que os policiais e westerns americanos são os programas mais vistos da televisão em todos os países. A terceira lição, extraída da experiência brasileira, é que o veículo televisão só pode conquistar status e atingir níveis de eficiência se utilizar valores artísticos de todos os campos de arte cênica no país, como escritores, teatrólogos, atores, diretores de teatro e cinema.”

Evidentemente, ao reproduzir esses testemunhos, não pretendo influir no vosso julgamento a respeito de nossas atividades no setor da informação e da comunicação. Basta-me o convite para estar convosco, para me convencer de que este centro de estudos acompanha com interesse o trabalho que vimos desenvolvendo. Insisto, porém, em chamar a vossa atenção para a circunstância de que, de nosso lado, a equipe da Rede Globo não descura de certas lições oriundas de vossos seminários. Nesse sentido, desejo observar que nos modelos de apresentação de nossas programações, que definem as características do “padrão Globo”, há uma exuberância de cores que se concilia perfeitamente com a qualidade artística, na qual mestre Gilberto há de reconhecer uma fidelidade às preferências visuais do homem do trópico, bem distinta dos tons acinzentados e leves dos países de clima temperado.

Além disso, acredito que jamais, como agora, tantos cantores e artistas oriundos do Nordeste lideraram as paradas nacionais de sucesso, interpretando canções sobre temas regionais, com seus trajes típicos e suas entonações características. Não há dúvida, portanto, de que a expansão dos meios de comunicação, dentro das diretrizes ora adotadas, vem prestando uma valiosa colaboração para o melhor conhecimento do Brasil pelos brasileiros, respeitando as tradições de cada região, mantendo a integridade cultural do país.

Em vossos estudos sobre o processo de colonização do Brasil, haveis demonstrado que a nossa unidade se deve ao espírito de adaptação e transigência com que a rigidez de certos costumes europeus se amolecem no contato com a geografia e as populações nativas do trópico. E o fator primordial constituiu a propensão do colono português a se misturar, pelo casamento ou por qualquer outra forma de união, com os povos indígenas e africanos.

Isso significa que o Brasil se formou pela comunicação entre as raças e culturas que aqui se encontraram. Por conseqüência, em nossa história, todo estágio de progresso se assinala por um aperfeiçoamento da comunicação entre os brasileiros, ou seja, com a sucessiva abolição de quaisquer formas de discriminação, desde a extinção da escravatura no século XIX à implantação da justiça social neste século. Desde a época em que Joaquim Nabuco apregoava que o negro é um homem até a lição de Gilberto Freyre de que o negro, o índio, enfim todo indivíduo de qualquer minoria étnica ou social é um irmão.

Ao receber recentemente o título de doutor honoris causa da Universidade de Brasília, tive ensejo de expor duas observações cuja reiteração se me afigura oportuna em vossa presença. A primeira é a de que a comunicação não é privilégio do homem. Todos os seres vivos se comunicam. Aquilo que nos caracteriza, a nós homens, é a compreensão. Com isso, queremos dizer que não adianta distribuir informações, se não estivermos dispostos a discuti-las. Utilizando-se a força dos meios de comunicação, pode-se talvez vencer, mas não convencer, o convencimento exige diálogo. Advertidos dessa exigência, o dever dos responsáveis pelos sistemas de comunicação é propiciar a expansão desse diálogo, não somente no âmbito nacional como no internacional.

Por outro lado, embora reconhecendo que o progresso das comunicações força a aproximação de todos os povos, não cremos que a mesma deva transformar o mundo numa aldeia global, com a absorção das nacionalidades. Do mesmo modo que, quando uma nação se transforma em Estado, os indivíduos e as famílias não se diluem mas, pelo contrário, adquirem cidadania e direitos específicos, tudo indica que, a partir do momento em que a humanidade consiga se estruturar em uma nova forma de Estado, as nações também deverão adquirir direitos próprios e inalienáveis. Justifica-se assim que, em plena época de expansão do relacionamento internacional, todas as nações insistam em preservar as suas características, as suas tradições, o seu papel.

Quando o Brasil se mantém na postura de resguardar a autonomia de todos os países, reclamando uma colaboração das nações desenvolvidas no estabelecimento de condições mais eqüitativas na distribuição de riquezas, está extraindo conseqüências práticas dessa nova perspectiva da ordem mundial.

Participar desse esforço é o sentido mais profundo de nossa missão.

 

Roberto Marinho. Conferência inaugural do Seminário de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 30/03/1982