Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


A Amazônia e o mundo

O Globo, 08/03/1989, p. 1. Arquivo / Agência O GloboQualquer discussão sobre o futuro da Amazônia que tenha como limites a própria região e o momento presente estará condenada a não chegar a conclusão alguma. O problema da poluição e do equilíbrio ecológico tem dimensão mundial — e não se iniciou com a primeira árvore abatida na floresta equatorial.

E preciso começar do começo e olhar além das fronteiras de qualquer país ou continente, para alcançar uma visão objetiva do perigo real que existe para a Terra em futuro terrivelmente próximo; e para saber qual é o dever de cada um e de todos os países.

A ameaça tem nome: efeito estufa. Em outras palavras, aquecimento. Até algum tempo atrás, o assunto era província de especialistas. Hoje, a simples leitura dos jornais, acompanhada de informações colhidas junto aos estudiosos, permite até a jornalistas leigos discutir a questão.

O efeito estufa, como nos ensinam, não é o calor que consideramos normal para o planeta — uma temperatura média pouco abaixo dos 30 graus — porque é a ele que se deve a sustentação da vida. Mas o aquecimento artificialmente acelerado, que cabe ao homem deter nas próximas décadas, sob pena de que as condições de vida venham a se aproximar perigosamente do insuportável.

A inclinação do eixo da Terra varia periodicamente e o clima acompanha essas variações que se processam com enorme lentidão, ao longo de milênios. A última Idade do Gelo não pertence à memória coletiva do homo sapiens: todas as nossas diferentes formas de civilização ocorreram dentro do mais recente ciclo de calor progressivo, iniciado há cerca de dez mil anos.

Ocorre que o aquecimento, neste ciclo, sofreu aceleração que pode ser definida, em termos planetários, como brusca: do começo do século passado, até os dias de hoje, a temperatura ambiente média vem subindo numa aceleração que torna os índices da última década equiparáveis aos de milhares de anos no período anterior à revolução industrial.

O atual desequilíbrio ocorre exclusivamente por culpa do homem. Nossa atmosfera retém os raios infravermelhos do Sol — o que é ótimo, pois caso contrário não haveria vida. O problema está na retenção excessiva e progressiva. Esse é o efeito estufa, que tem as seguintes causas principais, todas ligadas à ação do homem.

Lançamento à atmosfera de dióxido de carbono produzido pela queima de combustível fóssil (gasolina e outros derivados de petróleo, carvão etc.). Estima-se que isso esteja ocorrendo em média anual de cinco a seis bilhões de toneladas; para ter idéia do que significa, os mares, que constituem o maior fator isolado de absorção do gás, dão conta, por ano, de dois bilhões de toneladas. E a queima de combustível não tem parado de crescer: aumenta numa proporção anual entre dois e quatro por cento.

Redução das florestas — porque o ciclo da vida vegetal inclui a absorção de dióxido de carbono e a sua análise biológica, por meio da qual o carbono é absorvido e o oxigênio devolvido à atmosfera.

Diminuição da capa de ozônio na atmosfera. Isto se deve, entre outras causas, ao clorofluorcarbono, um produto industrial que se encontra, por exemplo, nos sprays. O ozônio bloqueia parcialmente os raios ultravioletas do sol, e os “buracos” causados pela ação do homem não só aumentam o risco de câncer de pele como, entre outros danos, diminuem a capacidade dos oceanos de absorverem o dióxido de carbono.

Produção de outros gases que têm efeito semelhante ao do dióxido de carbono, como óxido de nitrogênio (emanado por adubos químicos e pelo querosene queimado pelos aviões a jato) e metano, produzido, por exemplo, pelas plantações de arroz. Ironicamente, verifica-se que a chamada “revolução verde” que multiplicou os arrozais asiáticos e afugentou o fantasma da fome de muitos países contribuiu, embora em pequena escala, para o agravamento do efeito estufa.

A comunidade científica internacional é unânime em apontar as terríveis conseqüências do fenômeno. Prevê-se que, à falta de providências heróicas, em meados do próximo século a temperatura média da Terra terá aumentado entre três e oito graus.

Parece pouco, mas será suficiente para profundas alterações. Haverá ampliação dos mares e degelo nas regiões polares, produzindo uma elevação média de um metro ou até bem mais no nível do mar — o suficiente para submergir imensas áreas do litoral em todos os continentes. Calcula-se que alguns países do Oriente perderão até 40% do seu território; no Brasil, as conseqüências na foz do Amazonas e no extremo Sul serão catastróficas.

O clima sofrerá muito: secas mais fortes e mais freqüentes, maiores índices de chuvas nas regiões tropicais, acarretando inundações diluviais. Espécies animais e vegetais desaparecerão. Parasitas e insetos, resistentes a variações climáticas, prosperarão. Doenças tropicais — como a do sono, causada pela mosca tsé-tsé — invadirão regiões temperadas. Prevê-se, ainda, que já nas próximas décadas começarão a surgir problemas na produção de alimentos e no abastecimento de água.

Não é de admirar, portanto, que em todo o mundo civilizado o efeito estufa seja visto com preocupação ou mesmo pânico.

A maioria dos cientistas concorda que para deter o efeito estufa impõe-se atacar o problema cm todas as frentes. Deter a devastação da Amazônia e de outras florestas do Terceiro Mundo? Certamente — entre outras razões porque as do Primeiro já cederam lugar ao progresso há muito tempo.

Mas cobra-se também das nações industrializadas a sua parte: por exemplo, criar impostos restritivos ao uso de combustíveis fósseis, investir nas fontes de energia não poluente (como a cólica ou a solar) e elevar os índices de produtividade das que poluem.

Neste capítulo, a propósito, os Estados Unidos praticam no momento uma política delinqüente: os índices de produtividade na queima de petróleo e carvão estacionaram em 1987 e regrediram em 1988.

Em suma, a estratégia recomendada pela comunidade científica tem duas linhas principais: tanto é preciso aumentar a absorção de dióxido de carbono (e por isto é importante preservar a Amazônia e reflorestar intensamente em outras partes) como reduzir a produção desse gás e de outros também poluentes. Quem defende só uma parte da solução está se recusando a ver o problema globalmente — e está, de fato, fugindo ao enfrentamento realista de uma das mais graves ameaças com que a humanidade já se deparou.

Em face desse quadro, como deve se comportar o Brasil?

Em primeiro lugar, cabe-lhe repelir a pecha de principal responsável pelo agravamento do efeito estufa e a chantagem que a acompanha. Países ricos e organizações internacionais nos ameaçam com punições no campo econômico caso não adotemos atitudes drásticas em relação ao controle ambiental na Amazônia. E isso não é apenas chantagem, mas chantagem baseada em premissa deturpada.

É preciso destacar, a propósito, que não há Amazônia só no Brasil (embora só se fale na nossa); que as denúncias e o debate ignoram a diferença entre a Amazônia física e a Amazônia legal.

Por outro lado, refugiar-se na posição defensiva para usá-la como desculpa para a inação seria hipocrisia, e um desserviço que o Brasil de hoje estaria prestando ao Brasil do próximo século. Devemos reconhecer que há, de fato, desmatamento indiscriminado, até mesmo com subsídios oficiais; que não policiamos devidamente uma região de enorme importância estratégica; que, enfim, não executamos e sequer formulamos adequadamente uma política coerente de proteção da Amazônia.

Cabe ao Brasil — porque se preocupa com as gerações que virão, e não por estar aguilhoado pela pressão externa — dar ao mundo um exemplo de correta preocupação com o equilíbrio ecológico, reconhecendo que este não é território de visionários, mas campo de ação prioritária para o país.

Explorar a Amazônia, sim — mas racionalmente. Nada impede o desenvolvimento na região de políticas agrícolas e de produção energética e aproveitamento do subsolo. Ter acesso ao Pacífico por rodovia, a partir da Amazônia, é não apenas um direito do Brasil, mas também um imperativo econômico de facilitar o ingresso e a saída de produtos pelo oceano em cujas margens se encontram países que no próximo século estarão entre os mais prósperos da Terra.

Dar alimento e trabalho a milhões de brasileiros não entra obrigatoriamente em conflito com o respeito às leis da natureza — desde que o governo e o empresário atuem harmoniosamente com o cientista e a comunidade.

Uma política inatacável de convivência com o meio ambiente, além do mais, dará ao Brasil autoridade moral para discutir nos foros internacionais o que se está fazendo e deixando de fazer no resto do mundo sobre a ameaça que se avizinha de todos.

Nestes tempos de debate incessante e agitação por vezes irracional da questão, plenários não faltam. Só esta semana, o Brasil comparece a dois: a reunião em Quito do Tratado de Cooperação Amazônica e o congresso mundial em Haia, convocado por países europeus. Ao primeiro, levamos proposta com dois objetivos: articular os oito países da região numa frente de combate ao lobby da desinformação e promover planos concretos de desenvolvimento integrado.

Não deve ser diferente nossa estratégia em Haia: apoio integral a medidas legítimas de preservação do equilíbrio ecológico em todos os continentes, e repúdio a tentativas de acuar o Brasil, transformando-o no grande réu da questão.

É certo, devemos insistir que, desacompanhada de medidas concretas de preservação, veremos diminuída a nossa capacidade de resistir à pressão internacional — principalmente tendo-se em conta o nível de histeria que atingiu. Essa advertência não deve ser dirigida apenas ao governo brasileiro, mas a todos, no mundo todo.

Afinal, o espectro do aquecimento insuportável paira sobre a humanidade inteira. Para exorcizá-lo, a humanidade inteira precisa de muito mais ação racional, e muito menos retórica.

 

Roberto Marinho. O Globo, 08/03/1989