Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


A reação dos empresários

Eram previsíveis as dificuldades que o governo enfrentaria para reconstituir um cenário de entendimento entre empresários e trabalhadores, em substituição ao pacto social, construído pacientemente, ao longo de mais de três meses.

A decisão da FIESP não é de surpreender. Foi tomada após reunião para analisar os resultados do último encontro do fórum realizado em Brasília, na semana passada. Em última análise, é uma reação pública à forma arrogante e agressiva com que a CUT tem se comportado nos encontros sem nenhum respeito aos empresários, ou a sua representação, e até mesmo à ministra Dorothéa Werneck.

A primeira condição para uma negociação efetiva é a disposição dos interlocutores de se respeitarem mutuamente. Uma das partes — a CUT —, contrastando com o comportamento dos demais representantes da classe operária, assume postura de intransigência, radicalizando as suas propostas e criando, entre as partes, um clima de animosidade incompatível com a própria idéia de negociação. Pois o que ela quer, no fundo, é apresentar a classe patronal como intolerante e insensível, comprometendo-a assim perante os trabalhadores.

Não se deve, pois, no ato da FIESP, identificar uma recusa ao diálogo por parte dos empresários, que têm emitido sinais evidentes de sua disposição de aceitarem reposição de perdas salariais sem repasse dos aumentos decorrentes para os preços. Sua atitude é um ato de legítima defesa dos empresários que não podem mais sofrer as agressões sistemáticas e constantes da CUT, braço sindical de uma organização partidária cuja única possibilidade eleitoral consiste no agravamento, a curto prazo, das condições de vida dos trabalhadores.

A CUT está interessada no voto do trabalhador e não em uma reposição razoável das perdas salariais. Podem os trabalhadores debitar à sua intransigência a postergação de uma reposição de 13% (treze por cento) sobre os salários de janeiro além da fixação do salário mínimo em mais de 25% superior ao vigente. Debitem e comecem a perceber que confundir os interesses eleitorais do PT com os interesses da classe trabalhadora acaba prejudicando, no bolso, os operários. Não aceitar uma reposição razoável e insistir em outra irrealista a pretexto de não conceder quartel ao capital é trair a classe trabalhadora, que passa a ser mera massa de manobra. Foi isso o que compreenderam os dirigentes da FIESP ao decidir se afastar do fórum. Não há diálogo entre o capital e o trabalho, verdadeiro e útil, se persistir a idéia da CUT de um sindicalismo de confrontação e não de cooperação. Não há nada mais reacionário e retrógado, do ponto de vista da história, que o sindicalismo de confrontação.

E fundamental, agora, reorganizar o fórum convocando a representação dos empresários e trabalhadores para o diálogo, e não para o confronto. O que o gesto da FIESP abre é este caminho que deve ser perseguido com a urgência que a situação brasileira exige.

 

Roberto Marinho. O Globo, 07/04/1989