Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


A verdadeira cilada

O Globo, 07/11/1990, p. 1. Arquivo / Agência O GloboDado a rompantes eventuais, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Mário Amato, classificou o Plano Collor como uma cilada em que caíram os empresários. O excesso verbal preocupa todos quantos conhecem os problemas que dificultam o desenvolvimento do programa de recuperação econômica. Neste momento, permitir que o nervosismo dite julgamentos abrangentes e radicais significa — sem oferecer alternativa viável — trabalhar contra o mais ingente esforço até agora empreendido pela nação para dobrar e vencer o inimigo número um do povo, que é sem dúvida a inflação.

Simplesmente não é verdade que tenha havido uma cilada. Diante do processo hiperinflacionário formado no final de 1989 e início deste ano, ninguém, muito menos os empresários, ignorava que o novo governo, a ser fiel a seus compromissos, teria de jogar duro contra a inflação.

O problema é que no Brasil os agentes econômicos acostumaram-se a uma política monetária frouxa, produto de déficits públicos crônicos cobertos com emissão de moeda. O que o governo fez foi exatamente aplicar receita clássica: eliminou o déficit e puxou as rédeas da política monetária. E natural que falte dinheiro — ou, como se diz no jargão dos economistas, que o mercado tenha ficado sem liquidez — e as taxas de juros subam, como reflexo da escassez de moeda.

O combate sério à inflação é sempre processo muito doloroso. Há uma forma de atenuá-lo, que é o entendimento entre empresariado, trabalhadores, políticos e governo, cada parte assumindo sua dose definida de sacrifício.

O programa de estabilização econômica passa pelo seu momento de maior dificuldade. O aperto de liquidez ainda não alcançou os efeitos desejados sobre os índices de preços — mas titubear, a essa altura, seria um desastre para o país, pois o processo inflacionário acabaria destruindo o setor produtivo. Além disso, está em prática uma política de abertura e modernização da economia brasileira, capaz de colocá-la em condições de competir no mercado internacional. Em troca de quê vamos agora desprezar os sacrifícios do presente e abandonar as promessas do futuro?

Sem dúvida o programa é passível de correções. Em diversos pontos, o empresariado — como todos os setores da opinião pública — pode e deve dar a contribuição de sua análise crítica e de suas reivindicações. Desde, é claro, que tenha para isso a autoridade de quem está fazendo a sua parte.

As taxas de juros — motivo central das preocupações das classes produtoras — de fato precisam cair. E fatalmente cederão, assim como cederá a inflação, desde que se mantenha, rigorosamente, a política de controle monetário. Fora dessa realidade incontornável, haveria apenas o alívio temporário de soluções ilusórias, antes que o país voltasse a viver o pesadelo de 1989.

Ninguém deseja esse recuo fatal — e ninguém deve, ao cair na cilada do desalento, contribuir para que ele se produza.

Roberto Marinho. O Globo, 07/11/1990