Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


Coragem, espírito público e trabalho

O Globo, 29/03/1989, p. 3. Arquivo / Agência O GloboQuem são os responsáveis pelos fundamentos da política econômica do governo, nos quais se inspiraram os planos Cruzado, Bresser e Verão? Indubitavelmente, em primeiro lugar, os dirigentes do PMDB.

Com relação ao cruzado, basta recordar os encontros no recinto do Congresso, reunindo as bancadas do partido na Câmara e no Senado, em que o ministro da Fazenda de então foi convocado para receber inequívocas demonstrações de apoio e estímulo.

Quanto a Bresser Pereira, a sua indicação constituiu uma expressa exigência partidária. Finalmente, na hora em que empresários e sindicalistas se dispuseram a participar do esforço comum para solucionar os problemas econômicos do país, a direção do PMDB colocou sob suspeição a iniciativa de um pacto social, optando pela emissão de novos “pacotes”, do que redundou esse melancólico programa de verão.

Ao delinear-se a perspectiva de insucesso dessa mais recente tentativa, a corrente que se denomina de “histórica” resolveu adotar uma atitude de crítica e de oposição ao governo, procurando eximir-se de sua responsabilidade. Foi preciso que Iris Resende levantasse a bandeira da “moderação” para despertar em seus correligionários a consciência de que a única posição que lhes cabia era a de autocrítica.

As demais agremiações partidárias vêm dando também a sua aprovação aos programas adotados. A própria aliança laico-eclesiástica CUT-CNBB manifestou-se favorável ao congelamento e medidas afins.

Com exceção do PDT, cujo chefe considera a inflação indispensável para manter a atmosfera em que suas ambições poderão vingar e, por isso, combate qualquer esforço de contenção do custo de vida, nenhuma liderança política pode eximir-se de ter colaborado para essa seqüência de planos frustrados.

E de justiça ressalvar que os governadores Orestes Quércia, Moreira Franco, Newton Cardoso e Tasso Jereissati, desde a primeira hora, vêm alertando o governo e o país com referência aos riscos e à imprudência das medidas de contenção postas em prática até agora.

Também a comunidade acadêmica, abrangendo economistas das mais diversas escolas, incluindo ex-ministros da Fazenda, trouxe periodicamente a sua contribuição para que venha persistindo essa sucessão de “pacotes” que pretendem substituir as leis naturais do mercado por artifícios e expedientes que medeiam entre a pressão fiscal e a ameaça policial.

Já tivemos oportunidade de destacar a atuação do professor Octávio Bulhões, por vir advertindo a opinião pública com relação à questão financeira que, mantida em seu atual tratamento, inviabiliza qualquer política antiinflacionária.

Dentro dessa convergência de posicionamentos, não tem sentido fixar exclusivamente nos governantes a acusação pelos reiterados insucessos. O presidente e as autoridades econômicas, procurando democraticamente acomodar-se a todas essas pressões, não se têm detido na aplicação dos mais amargos remédios, ortodoxos ou heterodoxos, que lhes têm sido sugeridos.

Neste instante, a situação atinge um nível de agravamento que impõe seja ampla e profundamente reexaminada a questão de como sanear a economia, a fim de evitar os riscos que despontam para a estabilidade social e política do país.

Toma-se indispensável o reinício de um diálogo em que todos os agentes econômicos — e não apenas burocratas, economistas e ideólogos — reúnam-se para um ajustamento de linhas de revisão e de ação a serem adotadas.

A hora não é de recriminações escapatórias ou subterfúgios. E de racionalidade, coragem, espírito público e trabalho.

 

Roberto Marinho. O Globo, 29/03/1989