Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


Correção de rumos

Dentro de 13 semanas, estará em curso o processo eleitoral do novo presidente da República, o qual imediatamente dará início às providências para um levantamento da situação econômico-social do país.

Tudo indica que se procederá a um balanço abrangendo as diretrizes que redundaram na degradação dos serviços públicos essenciais, na deteriorização da infra-estrutura de energia, transporte e comunicações, bem como as políticas fiscal e salarial adotadas, que obrigaram a iniciativa privada a se desviar para uma economia informal em dimensões jamais atingidas.

Deverá também ser reexaminado o tratamento dado à rolagem da dívida interna em condições que levaram as entidades empresariais a temer o risco de uma moratória, sugerindo até projetos de lei tendentes a restaurar a credibilidade dos títulos públicos.

A adequação das decisões da Cacex às recomendações do Concex merecerá um exame especial que, naturalmente, se estenderá às negociações da dívida externa que nos conduziram a um retorno às condições de moratória, e ainda a uma meticulosa revisão das operações de “conversão informal” que atingiram o montante de alguns bilhões de dólares.

Não se pode negar à equipe burocrática que vem conduzindo a política econômica sucessivos esforços para combater a inflação. Infelizmente a realidade é que hoje nos encontramos na perspectiva de nos conformar com a meta de uma taxa mensal de 30%.

Nesse contexto, imaginar que figuras idôneas pudessem ambicionar substituir os responsáveis por essa situação, no epílogo do governo, é falta do mais elementar bom senso ou exacerbada preocupação de quem tema eventuais óbices em operações de última hora.

Em nossos editoriais, deixamos explícito que se impunha ao governo “uma reforma na sua linha de ação destinada a retomar o diálogo com o Congresso, os governos estaduais e com a sociedade”. E reiteramos que “O Globo não está interessado em manter ou substituir auxiliares do presidente Sarney”.

Quanto à celeuma suscitada por essas palavras, não merecia registro se não revelasse uma sincronizada deturpação dos fatos e uma estranhável incoerência por parte de seus autores.

Na edição de ontem, noticiamos que o presidente Sarney anunciou “a adoção de novas medidas econômicas para cumprir o programa antiinflação apresentado pelo Congresso Nacional”.

Esperamos que essa correção de rumos possa atingir os objetivos pelos quais vimos propugnando.

 

Roberto Marinho. O Globo, 09/08/1989