Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


Trégua antes da tormenta

Os sonhos do Plano Verão ameaçam transformar-se em pesadelo, antes da chegada do inverno. Os preços escapam de controle. O dólar no parelelo valoriza-se, refletindo a desconfiança do capital. No âmbito do trabalho, frustra-se a possibilidade de reposição negociada das perdas salariais.

Tudo isto antes de serem promovidos os acertos necessários: descongelamento, ajuste da taxa de câmbio, redução da taxa de juros e correção dos salários, os quais, afetando os custos e a demanda, poderão devolver ao país os riscos da hiperinflação.

Setores governamentais, assustados, sugerem a possibilidade de se mudar o índice de cálculo da inflação, desatentos a que tal alteração resultará apenas em maior perda de credibilidade.

Chegamos na verdade a um ponto em que o governo, ao invés de pretender dizer à sociedade qual a taxa de crescimento do custo de vida, deveria, isto sim, indagar às donas-de-casa, numa pesquisa humilde e honesta, qual o crescimento real que elas estão constatando, como uma dolorosa e diária surpresa, em cada ida aos supermercados, às farmácias e ao comércio em geral, ou na hora do pagamento de qualquer serviço público.

As greves se tornam cada vez mais selvagens. As ações repressivas, em conseqüência, acabam, também, escalando na violência. Dirigentes da CUT ameaçam os empresários com uma seqüência acelerada de paralisações. O candidato do P1’, ao iniciar no Rio a sua campanha, acusa Luís Antônio Medeiros de ficar “lutando por benefícios para os metalúrgicos”, “despolitizando” os trabalhadores que, a seu ver — num ostensivo desvirtuamento — objetiva a “luta pelo poder”.

As relações entre o Executivo e o Congresso são cada vez mais tensas. Como entre o governo federal e os governos estaduais. As divisões internas do PMDB perturbam a sua unidade. O PFL continua sacudido por tremores internos.

Esse cenário de conflitos exacerbados não pode deixar de preocupar as forças políticas e sociais que construíram a transição democrática. Exige-se uma trégua que viabilize a retomada do diálogo entre empresários e trabalhadores (com exclusão da CUT, que prefere a confrontação à colaboração), tendo a participação efetiva dos partidos responsáveis pela transição democrática, inspirado, não na pequena política, mas na consciência da gravidade da situação e na urgente necessidade de serem encaminhadas soluções definitivas, ainda que heróicas, para o encilhamento financeiro do Estado, cujos efeitos desagregadores sobre o organismo nacional têm o mesmo impacto da droga sobre o organismo do viciado.

O ex-ministro Octávio Bulhões desvendou o fulcro dos problemas que enfrentamos, insistindo em que cada dia se torna mais difícil ao governo “reduzir substancialmente sua despesa com a rolagem da dívida”. Seu posicionamento, já agora com o endosso dos principais economistas brasileiros, deixa claro que a crise é essencialmente financeira, cuja raiz se localiza na extravagante experiência de indexar o dinheiro. Esse fenômeno da gestão monetária “à brasileira” precisa ser corrigido como condição para que as autoridades recuperem capacidade efetiva de realizar uma política monetária que controle a liquidez do mercado. E para cessar uma prática que agrava a concentração de renda e transfere para os tomadores de títulos públicos parte substancial da receita tributária arrecadada de todos os brasileiros.

A tomada de consciência dessa situação deixa evidente que cabe à sociedade, através da ação de seus representantes políticos ou de classe, antes de pensar em como vencer a eleição, preocupar-se em assegurar que ela se realize.

Há uma questão mais imediata a ser resolvida. Sem isso, todos os nomes que surgiram serão devorados. E a ida às urnas poderá ocorrer como um gesto desesperado de ressentimento ou de violência. Os brasileiros têm o direito de esperar e exigir que a primeira eleição presidencial depois do período de arbítrio seja o início de uma nova era de democracia efetiva, baseada na justiça social e orientada para o desenvolvimento.

 

Roberto Marinho. O Globo, 09/04/1989