Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


A esperança na comunicação e no esclarecimento

Recebo o título de doutor honoris causa da Universidade de Brasília como uma homenagem que transcende os meus méritos e uma responsabilidade que deverá marcar de modo significativo a minha vida.

Ao manifestar os meus profundos agradecimentos ao magnífico reitor, ao conselho universitário, ao corpo docente e ao corpo discente, assumo o compromisso de me esforçar por manter as minhas atividades jornalísticas e educacionais à altura da dignidade que me estais conferindo.

Confesso, magnífico reitor, que ao ler a comunicação do vosso julgamento sobre as realizações da Fundação Roberto Marinho, no âmbito do ensino de 1º e 2º graus, como também na preservação do patrimônio histórico e artístico do país, em que generosamente se assinala o meu empenho pessoal em pôr os atuais recursos da imprensa a serviço da educação fundamental dos grandes contingentes humanos que se distribuem ao longo do nosso território, o meu pensamento se voltou para algumas décadas atrás, quando recebi de Irineu Marinho, meu pai, a herança de uma lição e um desafio.

A lição de que o jornal não é somente um instrumento de divulgação de informações mas, acima de tudo, de captação e expressão dos anseios nacionais; o desafio de não medir sacrifícios na luta para dar atendimento aos mesmos.

Naquela época em que o O Globo iniciava os seus primeiros passos, a nação se empenhava em concretizar os ideais que haviam inspirado a proclamação da República, pugnando pelo aperfeiçoamento das instituições representativas e a aceleração do nosso progresso, mediante a participação efetiva nas conquistas da civilização e da ciência.

Enquanto os setores políticos e militares esboçavam movimentos que iriam desaguar na Revolução de 30, os setores artísticos antecipavam a nova era na Semana da Arte Moderna.

Quanto aos círculos educacionais, a partir da fundação da Associação Brasileira de Educação, exigia-se uma reforma tendente a restabelecer a valorização da universidade como centro não apenas de preparação técnica, mas de pesquisa, que nos permitisse acompanhar os novos rumos que se entreabriam nas ciências físicas, instaurando-se cursos de atualização cultural e promovendo-se a vinda de figuras cujas concepções então se firmavam, como Albert Einstein, no sentido de se criar um estado de espírito capaz de superar preconceitos que remontavam ao século XVIII, adotados pelo marquês de Pombal, aqui implantados com a chegada de D. João VI e reiterados pelos dogmas positivistas do início deste século, segundo os quais a universidade, quando voltada para a ciência pura, constituía um entrave às especializações científicas e ao desenvolvimento.

O Globo acompanhou essas revoluções que simultaneamente se desencadeavam. Registrou a sua vitória no começo da década de 30, e também as desilusões que se seguiram. Quando os sonhos democráticos pareciam superados pela explosão das doutrinas extremistas que resultaria na Segunda Guerra, mantivemo-nos fiéis aos princípios da liberdade e da dignidade do homem.

Quando a reforma do ensino então realizada admitiu, sob inspiração totalitária, que “a cultura intelectual sem objetivo claro e definido” devia ser “considerada luxo (...) de escasso proveito à coletividade”, continuamos a lutar em prol de uma cultura livre e aberta, devidamente integrada no espírito universitário, que reflete a própria unidade da pessoa humana.

Finalmente, em 1945, ao lado da reconstitucionalização do país, concretizou-se o reconhecimento oficial da autonomia administrativa, didática e disciplinar da Universidade do Brasil. E com a transferência da capital para Brasília, esta casa passou a constituir o núcleo mais atuante de cumprimento da missão da universidade na vida brasileira.

Nessas condições, a homenagem que neste momento recebo, além de toda a sua valiosa significação, representa para mim o sinal confortador de que, juntamente com os meus companheiros de trabalho, vimos conseguindo nos manter, agora como em nossos primeiros anos, na linha de defesa das mais elevadas aspirações nacionais.

Na década de 50, adverti-me de que, com o desenvolvimento da eletrônica, a imprensa iria atingir dimensões extraordinárias, pelo que envidei esforços no sentido de proporcionar s Organizações Globo as condições que ora nos permitem falar diariamente a cerca de setenta milhões de brasileiros, levando-lhes a imagem do mundo de hoje: e bem assim, levar a imagem do Brasil de hoje a mais de oitenta países, com os diversos programas que exportamos, muitos dos quais premiados por prestigiosas instituições e academias de artes.

Paralelamente a essa estrutura técnica e artística, tomamos consciência de que a era em que estamos ingressando apresenta novos problemas e exigências, que só podem ser enfrentados à luz de certas distinções básicas.

A primeira é a de que a comunicação não é privilégio do homem. Todos os seres vivos se comunicam. Aquilo que nos caracteriza é a compreensão. Com isso, queremos dizer que não adianta desenvolver a tecnologia de distribuir informações, se não estivermos dispostos a discuti-las.

Utilizando-se a força dos meios de comunicação, pode-se talvez vencer, mas não convencer. O convencimento exige diálogo. E este implica em consulta à opinião da coletividade.

Por outro lado, considerando que as organizações especializadas nessas pesquisas, em que pese à sua reconhecida idoneidade, são obrigadas a realizá-las dentro de questionários restritos, temos de concluir que a única forma ampla e integral de auscultar a opinião pública, além dos pronunciamentos eleitorais, é se atrever a interpretá-la, é correr o risco de falar em nome dela, é se aventurar a imprimir editoriais e formular comentários, mantendo-se uma linha de coerência e esperando que os índices de venda de exemplares e de audiência de programas venham afinal a refletir a identificação ou não com o pensamento do homem comum.

Esse risco e essa aventura são tarefa da imprensa. Evidencia-se assim a tolice dos que pretendem vislumbrar práticas de monopólio nas cadeias de rádio e televisão de maior público ou nos jornais de maior circulação.

Em jornalismo, a eventual verificação de uma maciça preferência só pode ser obra do povo, sendo inúteis quaisquer manobras para forçá-la ou evitá-la.

Desde o momento em que a nossa organização se encontrou na atual posição, em contato com a maioria da população do país, não podíamos deixar de dedicar uma parcela ponderável de nossas atividades aos objetivos educacionais. Tampouco seria admissível não nos empenharmos em despertar a consciência nacional para resguardar as obras de arte e os testemunhos fundamentais de nossa história.

Se o êxito dessas iniciativas atingiu um nível que sensibilizou o egrégio conselho desta universidade, só nos resta, fortalecidos por esse reconhecimento, desdobrar os nossos esforços e insistir em nossa pregação.

Ao mesmo tempo, julgamos do nosso dever assinalar que não atribuímos a nossa identificação com a opinião pública à forma e à medida com que selecionamos os fatos divulgados ou à oportunidade de nossos comentários sobre os mesmos. Parece-nos que a explicação mais adequada está em nossa inalterável fidelidade a algumas concepções e crenças, em cuja adoção sentimo-nos coincidir com o julgamento popular.

Acreditamos que, de um lado, os problemas ecológicos, a escalada armamentista, os atos de terrorismo, a crise de energia, os desequilíbrios monetários e comerciais, constituindo ameaças à tranquilidade e à paz, e de outro lado, o progresso dos sistemas de transporte e de telecomunicação, aproximando cada vez mais os povos, estão a impor a implantação de uma nova ordem, não apenas econômica, mas jurídica, de âmbito universal.

Porém não cremos que a mesma deva transformar o mundo numa aldeia global, com a absorção das nacionalidades. Do mesmo modo que, quando uma nação se transforma em Estado, os indivíduos e as famílias não se diluem, mas, pelo contrário, adquirem cidadania e direitos específicos, tudo indica que a partir do momento em que a humanidade consiga se estruturar em uma nova forma de estado, as nações também deverão adquirir direitos próprios e inalienáveis.

Justifica-se assim que, em plena época de expansão do relacionamento internacional, todas as nações insistam em preservar as suas características, as suas tradições, o seu papel.

Por conseguinte, quando se fala em direitos humanos, há que se admitir que os mesmos compreendem os direitos dos indivíduos, das famílias e das nações, é fácil formular para o mundo uma política de defesa dos direitos individuais.

Difícil é reconhecer os direitos das nações porque isso implica o reconhecimento de deveres e a exigência não somente de um vago ideal de justiça social, mas na implementação de adequados padrões de justiça internacional.

Quando o Brasil se mantém na postura de resguardar a autonomia de todos os países, reclamando uma colaboração das nações desenvolvidas no estabelecimento de condições mais eqüitativas na distribuição de riqueza, está extraindo conseqüências práticas dessa nova perspectiva da ordem mundial.

Acreditamos ainda em que certas doutrinas sociais formuladas no século passado não podem continuar sendo discutidas no puro piano teórico, quando já foram cabalmente experimentadas e o seu fracasso, do ponto de vista da justiça e respeito à pessoa humana, já se acha definitivamente inserido na história. Em conseqüência, quando os seus velhos arautos insistem em defendê-las, mais se distanciam das legítimas aspirações do nosso povo.

Acreditamos que a ciência, em nossos dias, apesar do seu extraordinário progresso, se sente nas fronteiras de novas realidades que se delineiam ainda de modo impreciso, nos planos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno.

Finalmente, acreditamos que todo esse processo em gestação, no campo social, político e científico, antes de chegar ao texto dos livros, está-se revelando a cada dia, nas páginas dos jornais.

Na hora de escrever estas palavras, por exemplo, tinha ao meu lado um exemplar de O Globo anunciando marchas pela paz, novas observações colhidas por satélites, tentativas de aplicação da engenharia genética, enfim, sinais de que o mundo se transforma, ao mesmo tempo em que se noticiava a descoberta, na Espanha, de um altar de época anterior à “revolução neolítica”, demonstrando que desde a pré-história persiste, ao lado do culto dos mortos, a adoração a Deus, ou seja, um sinal de que a natureza humana, em sua mais profunda dimensão espiritual, permanece imutável.

Essa simples enunciação de matérias explica os motivos pelos quais, nos dias de hoje, os professores, no interesse de atualizar o ensino, se sintam obrigados a ler com os seus alunos, juntamente com os manuais e obras didáticas, os jornais diários. E a forma de mostrar que o conhecimento humano não está completo e acabado, mas em constante renovação.

Tal atitude de humildade e de respeito aos fatos não se restringe ao plano das ciências naturais. Também nas ciências humanas, os investigadores estão admitindo que, antes de se pretender salvar os homens, devemos saber ouvi-los.

Uma das características do nosso tempo é justamente esse cuidado de se retomar o contato com a opinião pública, de se dialogar com o homem comum, comportamento adotado pela Igreja a partir do Concílio Vaticano II e seguido pelas mais diversas entidades governamentais, sociais e culturais.

E talvez seja essa uma das causas dessa homenagem com que sou distinguido, em que meu nome se junta aos das eminentes personalidades que a receberam, estadistas, cientistas e teólogos.

Não trato das leis dos homens, das leis do mundo nem das leis de Deus. Lido com os fatos e a opinião pública. Se por acaso o título que me é conferido pretende me distinguir por essa condição, cabe-me mais uma vez repetir: muito obrigado.

Ainda nesse pressuposto, como palavras finais, atrevo-me a submeter ao vosso superior descortino uma observação sobre a atual situação.

As dificuldades se acumulam e se desdobram no aspecto inflacionário, de desemprego, de imperfeita distribuição de renda, de desigualdades regionais e desentendimentos políticos. Tudo isso é inegável. Também o é o consenso geral de que a crise será enfrentada e superada; e os desencontros serão solucionados. Por isso mesmo, há paz e ordem. Não se trata de acomodação passiva ao sofrimento, mas de um ato de fé. E quando um país, com os recursos naturais de que dispomos, com a estrutura industrial e agrícola que já implantamos, apresenta cento e vinte milhões de pessoas que se identificam na mesma esperança, há que se confiar no seu futuro.

Há que se trabalhar para fazê-lo maior e mais feliz. Cabe à inteligência brasileira dizer como fazê-lo.

E a vossa missão.

Roberto Marinho. Discurso na Universidade de Brasília, 15/12/1981