Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Despertar de consciências

O Globo, 19/12/1978, p. 1. Arquivo / Agência O GloboCreio não estar exagerando ao atribuir à minha profissão, o jornalismo, a característica de lidar continuamente com a emoção. Porque, se queremos qualificar de objetiva a informação, por isso mesmo serena e imparcial, a notícia não consegue escapar ao envolvimento humano e portanto ao sentimento. Dir-se-ia, então, que, de tanto tratar de emoções, se embotaria nossa capacidade de vivê-las, de vibrar com elas. Ao contrário — e penso que esse fato revela o verdadeiro jornalista — nós continuamos a sentir, a nos identificar com o material de cada dia, massa de nosso trabalho.

            Mas desse cotidiano emergem momentos ou situações de tal grandeza, gravidade, repercussão ou intensidade emocional que exigem de mim, diretor-redator-chefe de O Globo, uma palavra pessoal, quebrando a rotina.

Tais considerações me passavam pelo espírito à medida em que acompanhava o desenrolar da campanha da Rede Globo de Televisão, durante vinte e quatro horas, abrindo o Ano Internacional da Criança. Colhi, aos poucos, a impressão de que cada participante de nossa TV, ao surgir diante das câmaras, se encontrava ungido do mais puro amor pela criança brasileira necessitada.

Formou-se um sentimento coletivo em todo o país. Pela noite adentro, pela madrugada, cada pessoa se ligava a todas as outras nesse imenso território. Essa noite iniludivelmente uniu os brasileiros em torno de uma só vontade: ajudar a criança desfavorecida, fazer algo de positivo pelo futuro do Brasil.

Acima dos bons resultados de arrecadação, cuja apuração ainda não foi terminada, mais do que os grandes gestos de generosidade que o momento estimulou, além dos comoventes exemplos de contribuições provindos de quem menos tinha, a televisão brasileira, naqueles instantes, desvelou o coração nacional, provou a sensibilidade do povo brasileiro ao apelo humano, pondo à mostra sua bondade.

            Tão grandioso espetáculo de vibração comunitária só se tornou possível graças à existência da enorme rede de serviços montada e mantida pela televisão e pelo espírito de cooperação de toda a sua equipe, liderada e motivada por esse extraordinário intérprete da alegria e da dor, Roberto Carlos.

O cidadão, dentro de sua casa, viu-se íntimo de todas essas figuras da televisão, acompanhou os pedágios no Rio, em São Paulo, em Brasília, em Porto Alegre, Belém ou Recife, assistiu a cenas de inesquecível beleza espiritual, certamente decidiu juntar sua colaboração e, sobrepairando tudo, graças ao poder de comunicação da Rede Globo, se deu conta de estar integrado na comunhão nacional.

Ao definir os objetivos gerais do Ano Internacional da Criança, o Fundo das Nações Unidas para a Infância pretendeu “estabelecer uma base de referência para a defesa da criança e para a conscientização por parte dos dirigentes e do público quanto s suas necessidades fundamentais” e ainda “estimular o levantamento de recursos financeiros em todos os níveis do país em favor da criança não privilegiada”.

A Rede Globo respondeu ao chamamento do UNICEF, mobilizando todos os seus recursos técnicos, financeiros e humanos, entregando-se toda à sua bela missão de acordar o país para a urgência e importância da causa de salvação das crianças desprotegidas.

E nesse esforço ofereceu à nação, de modo comovente, a mais clara demonstração de seu relevante papel como dinamizadora do espírito da comunidade, como construtora de uma sociedade mais humana, como instrumento de fusão do espírito nacional. Esse programa deflagrador de nova consciência em torno das necessidades da criança ultrapassou a área formal dos compromissos para situar-se na atmosfera mais fecunda do engajamento definitivo, com empenho e amor.

Vivi como responsável pela Rede Globo, como jornalista e como cidadão, um dos grandes momentos de emoção de minha atividade profissional. Agradeço a resposta do povo brasileiro e a todos os companheiros que tornaram possível esse inolvidável espetáculo de união nacional e espero que esse movimento em favor da criança brasileira necessitada se transforme em autêntica conscientização e produza resultados duráveis a se refletirem no desenvolvimento do Brasil.

            Endereço, por fim, aos meus companheiros da Rede Globo de Televisão, o seguinte trecho do telex que recebi do representante do UNICEF no Brasil:

            “Em vinte anos de trabalho para o UNICEF, nunca vi manifestação tão emocionante e de tão alta qualidade profissional e técnica e tão substancial.”

 

Roberto Marinho. O Globo, 19/12/1978