Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


A grande viagem

O Globo, 09/05/1976, p. 1. Arquivo / Agência O GloboOs entendimentos mantidos por Geisel com Giscard e Callagham, que se desdobraram em reuniões com ministros e altas autoridades francesas e inglesas, marcaram um novo tipo de atuação internacional do Brasil. Cessou a fase de visitas simbólicas que apenas confirmavam o nosso alinhamento a blocos, ensejando solicitações de ajuda ou colaboração financeira.

Nos recentes encontros de Paris e Londres, o chefe do governo brasileiro discutiu negócios de mútuo interesse com a França e a Inglaterra, ao mesmo tempo em que foram abordados os problemas mundiais que nos atingem diretamente, firmando-se posições nas quais insistimos em deixar expressamente reconhecida a necessidade de se implantar um sistema baseado em critérios mais justos no relacionamento entre os povos.

Ao discutir os financiamentos e investimentos propostos que visam a assegurar recursos para os nossos programas de desenvolvimento, os dirigentes brasileiros não apelaram para outros argumentos que os de ordem técnica, referentes à garantia e à viabilidade econômica dos projetos. Não pedimos favores: expusemos possibilidades atraentes de aplicação de capitais. Tudo indica que créditos e investimentos necessários à nova etapa das legítimas ambições do nosso país serão uma realidade. Todavia esse êxito não representará a conseqüência mais positiva da viagem presidencial. Há um aspecto político de maior alcance.

Com serenidade e modéstia sem pretensões ufanistas, o presidente Geisel esclareceu que o Brasil, por seu potencial humano e imensos recursos naturais, que se estendem em um território de dimensões continentais, tem um papel expressivo a desempenhar no estabelecimento da nova ordem econômica mundial. Na solução que resultará dos conflitos ora travados em torno das regras de comércio e de padrões monetários, visando a um equilíbrio mais estável entre as nações industriais e aquelas em desenvolvimento, não poderão caber ao Brasil apenas missões executivas, mas também responsabilidades de decisão.

A emergência do nosso país para o primeiro piano tornou-se hoje um fato. Depois de ressaltada por Kissinger em sua vinda a Brasília, vem de ser formalmente reconhecida pelos governos dos países europeus visitados.

Como é natural, a opinião pública internacional se volta para o Brasil, curiosa a respeito do comportamento que pretendemos adotar, mantendo-se interessada em descobrir de que lado faremos pesar o nosso voto, livre e independente, nas várias divergências em curso. Nesse sentido, a trajetória da política externa brasileira se tem caracterizado pela coerência, não admitindo hegemonias nem intromissões em assuntos internos, defendendo uma distribuição eqüitativa de mercados, bem como o respeito à dignidade humana e aos princípios e valores da civilização cristã.

Entretanto, neste momento de afirmação, não poderiam faltar as vozes maliciosamente interessadas em denegrir o nosso país, partindo principalmente das correntes que não se conformam com o sucesso do “modelo brasileiro”, exemplo significativo de como é possível se marchar para o desenvolvimento, nos moldes da livre iniciativa.

O sistema brasileiro, conciliando as exigências do desenvolvimento com as da segurança, tem conseguido resguardar as nossas fronteiras das manifestações mais agressivas dessas correntes. Por isso, a tranqüilidade e a ordem reinantes no país nos dão condições para recusar quaisquer lições que nos pretendam dispensar e que impliquem a quebra da nossa soberania.

As palavras do chefe da nação, nos países que visitou, transmitiram essa mensagem de confiança nas instituições nacionais, considerando que é exatamente com base nas mesmas que estamos delineando a nossa potencialidade. Ao pronunciá-las, Geisel não falou apenas em nome do governo, mas do povo brasileiro, que nunca acompanhou, com maior orgulho e carinho, a viagem ao exterior de um seu presidente.

 

Roberto Marinho. O Globo, 09/05/1976