Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Aliados confiáveis

O Globo, 02/06/1982, p. 1. Arquivo / Agência O GloboEm 1941, depois do ataque do Japão às ilhas do Havaí, os Estados Unidos convocaram uma reunião de consulta das repúblicas americanas, prevista na Conferência Extraordinária Interamericana reunida em Buenos Aires, em 1936. As nações latino-americanas foram francamente favoráveis à convocação. Houve uma exceção: a Argentina, que se pronunciou de modo contrário, alegando que a agressão ocorrera numa ilha e não no continente. Nesse sentido, o ministro Ruiz Guinazú explicou que, “tendo o ataque japonês ocorrido no Havaí e não em local do continente americano, não havia sido cometido ato de agressão ao Novo Mundo e, conseqüentemente, não havia uma razão legítima para a reunião de consulta”.

Decidida a reunião, o governo argentino convocou os ministros das relações exteriores do Paraguai, da Bolívia, do Uruguai e do Chile, com o objetivo de criar um bloco que dividisse as nações americanas, a fim de evitar que a unidade de atuação redundasse em envolvimento no conflito. E efetivamente conseguiu que no conclave fosse aprovada apenas uma recomendação de ruptura de relações diplomáticas com o Eixo. A Argentina também se recusou a patrulhar as costas do Atlântico Sul, obrigando as nações vizinhas a maior esforço de vigilância.

Quando os navios brasileiros foram afundados por submarinos alemães, conduzindo-nos à guerra, com o envio da Força Expedicionária, a Argentina continuou mantendo a sua pragmática neutralidade, propiciando aos nossos agressores uma área vizinha de tranqüilidade, e que poderia servir, eventualmente, para o reabastecimento de suas belonaves.

Evidentemente a nação argentina, cujos laços de identificação com a família latino-americana são profundos e permanentes, não pode ser responsabilizada por aquela atitude isolacionista adotada pelo governo ditatorial do general Ramirez, o qual, como se recorda, foi deposto e substituído pelo general Farrel, que, infelizmente, manteve a mesma postura antiamericana.

Cumpre-nos recordar esses fatos em face da crise provocada pela decisão do general Galtieri de ocupar militarmente as ilhas Malvinas e em seguida invocar a solidariedade do continente para a sua manutenção. O ensinamento. de que os objetivos das cúpulas dirigentes nem sempre coincidem com os anseios de unidade e paz dos nossos povos obriga-nos a somente assumir compromissos internacionais no empenho de preservar e defender os ideais comuns de autonomia, liberdade, justiça e desenvolvimento. Não podemos, em nenhuma hipótese, compactuar com o uso da força para a solução de conflitos. Os princípios constitucionais da Carta da OEA e do Tiar prescrevem inequivocamente o julgamento e a composição pacífica das controvérsias. Ainda é cedo para uma avaliação de todas as conseqüências militares e diplomáticas dos trágicos incidentes em que se envolvem argentinos e ingleses. Inegavelmente, porém, as grandes potências já se advertiram de que as Malvinas são territórios essenciais ao controle estratégico do Atlântico Sul. Vão agir em função disso. E a partir do momento em que o general Galtieri afirmou que, ‘‘chegada a hora”, chamará “as Forças Armadas das nações irmãs da América e, se necessário, de outras latitudes do mundo”, encerrou-se a era do nosso afastamento das áreas críticas de confronto. Entramos na trajetória dos mísseis. Deixamos de ser apenas vizinhos da família americana, tornando-nos vizinhos de todas as nações, o que, nesta hora de agravamento das disputas mundiais, obriga-nos a manter absoluta coerência com os princípios que sempre nortearam a diplomacia brasileira e, de outro lado, a rever o grave problema do reequipamento das forças armadas.

Não se trata de fixar uma proporção ideal de dispêndios com armamentos em função da renda, pois a preparação militar não é apenas um custo a ser contrastado com outras alternativas de investimento. Ela é, na era moderna, a mais poderosa força fixadora de tecnologia avançada e um grande instrumento de autonomia do processo econômico nacional. Antes da importação açodada de equipamentos, exige um rigoroso planejamento baseado no já considerável potencial técnico e industrial do país. Trata-se, portanto, de um imperativo de segurança e desenvolvimento e não, como levianamente se apregoa, de uma concessão que se deve fazer aos anseios militares.

Não será por fecharmos os olhos e repetirmos que somos um país jovem e subdesenvolvido, que as dificuldades crescentes da vida internacional amavelmente se retirarão para o exclusivo convívio dos adultos. Pelo contrário, só dispondo de capacidade de resistência é que poderemos nos resguardar de envolvimentos e pressões.

O Brasil tem de pagar o preço de suas responsabilidades, sem o que não poderá sequer contar, nas horas de crise, com aliados confiáveis, pois a dura lição da história é que fraqueza não inspira solidariedade nem desperta confiança.

 

Roberto Marinho. O Globo, 02/06/1982