Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Descendo à terra

O Globo, 09/09/1985, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO presidente Reagan pôs em dúvida a eficiência e a credibilidade de seus representantes diplomáticos. No momento em que, no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio — GAT —, desenvolvem-se negociações entre os Estados Unidos e os seus parceiros do mundo livre, inclusive o Brasil, o governo americano lança um ultimato para aceitação de suas exigências até o próximo dia 1º de dezembro.

O Japão, a Coréia do Sul e todos os países da Comunidade Econômica Européia foram ameaçados de “represálias ilimitadas”.

Simultaneamente, o representante especial da Casa Branca para comércio, Clayton Yeutter, recebeu instruções para iniciar uma ação legal contra o nosso país, com base na cláusula 301 da Lei do Comércio, no sentido de que sejam julgadas as limitações da legislação brasileira à importação de computadores e componentes americanos.

Em suas declarações, Reagan reconhece que “em uma guerra comercial, não há vencedor, mas apenas perdedores”, propondo aos seus parceiros que, a fim de se livrarem de “medidas retaliatórias”, abram os seus mercados aos Estados Unidos, aconselhando que, para poderem competir com os produtos americanos, adotem “uma política de redução de impostos e aumento de emprego”.

Ao mesmo tempo, as autoridades americanas, em consonância com os interesses dos banqueiros do seu país, insistem em que o Brasil e demais nações devedoras assumam uma política fiscal rigorosa, com contenção do nível de emprego a fim de combater a inflação e se criarem condições adequadas para serem saldados os compromissos internacionais.

A simples enunciação dessas formulações deixa patente uma posição de incoerência, tanto mais estranhável quando se considera o empenho do presidente Reagan para conseguir do congresso, em 29 de agosto passado, a plena liberação da importação de calçados, que foi recebida com alívio pelos produtores brasileiros, til demonstração de boa vontade criara um clima favorável ao reexame pragmático e racional da reserva de mercado, que esperamos não venha a ser agora perturbado por descabidas reações emocionais.

Voltados para o espaço em que poderá travar-se uma eventual “guerra nas estrelas”, incorrem os dirigentes americanos no risco de não baixar os olhos para a realidade do mundo em que o seu grande país está inserido, cujas questões não se resumem em desequilíbrios monetários e comerciais.

Os problemas ecológicos, a escalada armamentista, os atos de terrorismo, constituindo ameaças à tranqüilidade e à paz, e de outro lado, o progresso dos sistemas de transporte e telecomunicações aproximando cada vez mais os povos estão a impor uma nova ordem não apenas econômica, mas jurídica e moral.

Nessas condições, quando se fala em direitos humanos, há que se admitir que os mesmos compreendem não somente os direitos dos indivíduos, mas também os das nações. Tão repugnante quanto a tortura de pessoas é a tortura de coletividades pela fome e pelo desemprego.

E fácil formular diretrizes de preservação dos direitos individuais. Difícil é reconhecer os direitos das nações, por que isso implica o reconhecimento de deveres por parte da área mais desenvolvida em favor das regiões mais pobres.

Por conseguinte, se os Estados Unidos, segundo as palavras do presidente Reagan, objetivam uma convivência pacífica, não lhes basta “lutar por um sistema comercial aberto”, mas empenhar-se concretamente na implantação de uma distribuição mais eqüitativa da renda mundial. Neste momento, o Brasil se une em torno do governo

Sarney, cuja nota oficial em resposta à decisão americana demonstra plena e serena confiança em que “os interesses mais amplos do relacionamento bilateral” venham afinal a prevalecer “sobre divergências comerciais ocasionais”.

 

Roberto Marinho. O Globo, 09/09/1985