Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Japão — a mágica da automação

Tóquio — Um largo fosso e um grande parque de densa vegetação separam o castelo de Nagoya do século XX. A noite, iluminada por refletores, a estrutura compacta de múltiplos telhados pode ser apreciada de longe, dominando a cidade moderna e agitada que se espalha à sua volta. Construído no século XVII pelo xogum (chefe militar) Tokugawa Ieyasu, o castelo simboliza o Japão feudal e isolacionista que desapareceu há mais de cem anos. Hoje é um museu, repleto de magníficos exemplares de arte japonesa, dominada por um sentido de refinamento e elegância na execução talvez sem paralelo em outras culturas.

Na verdade, o símbolo está mais distante da realidade do que aparenta: o que se oferece ao visitante não é o castelo original, destruído durante a II Guerra Mundial, mas uma cuidadosa reconstrução, na qual o concreto substitui a madeira empregada no prédio centenário.

Pode ser que seja melhor assim. Porque, à sombra do castelo, encontramos um Japão que é o oposto da nação fechada em si mesma dos tempos heróicos do xogunato.

Em Nagoya estão as principais instalações da Toyota, exemplo típico da economia japonesa dos dias atuais — uma indústria em permanente aperfeiçoamento, capaz de êxitos na disputa de mercados no exterior que há vinte anos seriam considerados impossíveis.

Uma visita às fábricas da Toyota — que produz quatro milhões de veículos por ano — ajuda muito a entender como o “impossível” aconteceu. Nas linhas de montagem de motores e carrocerias, o leigo se defronta com a mágica da automação. O processo não é novo: suas possibilidades e implicações são tema de discussão freqüente nos meios econômicos e na imprensa — chega a ser arduamente combatido, com ênfase igual àquela empregada pelos donos de estrebarias para condenar as primeiras carruagens sem cavalos do início do século.

Mas só o contato pessoal permite sentir o que é de fato a automação — e é quando o uso em relação a ela da expressão “mágica” deixa de parecer exagero retórico. As linhas de montagem se atendem por centenas de máquinas: transportam, furam, aparafusam, torneiam, prensam, ajustam, montam. Metro a metro, como num strip-tease ao contrário, as peças se acrescentam, se acoplam, se juntam — um automóvel vai nascendo, um processo que, da primeira à última etapa, leva vinte horas.

Não é mágica — mas que outra idéia poderia ocorrer ao visitante boquiaberto?

A presença do homem, mesmo em número extraordinariamente pequeno, serve para dar a tranqüilizadora certeza de que as máquinas não são perfeitas. Aqui e ali, acende-se uma luz num grande painel, e os operários, como guardas de trânsito, correm a restabelecer a fluidez do tráfego. No sistema japonês — e esse detalhe tem significação para quem procura traçar um perfil do operariado do Japão — qualquer aprendiz tem o direito e a responsabilidade de fazer parar toda a montagem ao perceber que algo não vai bem.

Quando se passa para a Seção de Acabamento — onde os carros recebem forração, pára-choques, assentos etc. — outro pormenor ajuda a explicar como a indústria japonesa chegou ao estágio em que se encontra. Já não há automação, e é grande o número de operários. Alto-falantes transmitem um dos jogos finais do campeonato nacional de beisebol — talvez a única paixão japonesa que o visitante brasileiro vê com total incompreensão — mas as emoções da partida não interrompem o trabalho, nem sequer afetam o seu ritmo. E note-se que um dos times finalistas é de propriedade da Nagoya.

Fica mais fácil entender, após a visita, a situação vantajosa dos produtos japoneses nos mercados internacionais. E não causa mais espanto a conclusão de um estudo efetuado por uma empresa automobilística americana, segundo a qual um trabalho que no Japão demanda 97 homens-hora exige, nos Estados Unidos, 156 homens-hora. A diferença está nos dois fatores presentes nas linhas de montagem da Toyota (aqui citada apenas como exemplo do que acontece em centenas de outras indústrias japonesas): automação em larga escala e alta produtividade.

As classes produtoras de outros países, assim como as suas lideranças sindicais, poderiam beneficiar-se significativamente de um maior intercâmbio, indo além da busca de bons negócios e investimentos, com suas congêneres japonesas. Há anos o Ocidente acusa o Japão de se “apropriar” de seus inventos e descobertas e, de fato, o país paga mais royalties por licenças de patentes à Europa, por exemplo, do que vice-versa. Mas isso não significa que falte originalidade à indústria japonesa. Como dizia numa entrevista recente o ex-presidente da Sony, Akio Monta, Picasso foi influenciado por Toulouse-Lautrec, Beethoven aprendeu muito com Mozart — e os japoneses têm tentado ser os Picassos e os Beethovens da produção industrial.

Talvez tenha chegado a altura de a economia ocidental — sem excetuar os países em desenvolvimento — ir buscar no Japão os seus Lautrecs e os seus Mozarts.

 

Roberto Marinho. O Globo, 02/11/1982