Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Japão — um papel para o futuro

Tóquio — Intocada pela guerra, Kyoto, a velha capital, guarda quase intactos alguns dos principais tesouros do velho Japão, preservados em templos e palácios que são, em si, verdadeiras obras de arte.

Mas é o Japão de hoje que leva o visitante da metrópole de Tóquio até o relicário histórico: faz-se a viagem a bordo do famoso Shinkansem, o “trem-bala” que alcança velocidades superiores a 200 quilômetros horários e cobre em menos de três horas percurso maior do que a distância entre Rio e São Paulo.

Exceto quando viaja de um extremo a outro do arquipélago, o japonês prefere o trem ao avião; e o Shinkansen, ligando 1quio à mais ocidental das ilhas, Kyushu, representa o maior avanço de sua engenharia ferroviária. Mas só por enquanto: está saindo das pranchetas, já em testes, o trem sem rodas que, suspenso no ar, será ainda mais veloz e mais confortável.

Não se pode discutir com a inevitabilidade do progresso — mas o gaijin de primeira viagem talvez precise mesmo do intervalo de três horas para a transição entre o formigueiro humano de Tóquio, moderna e dinâmica, e o ritmo tranqüilo de Kyoto, com suas avenidas largas e sua arquitetura tradicional. E como ir de Milão a Florença, de Madri a Granada. Vale a pena fazê-lo com calma, mesmo que seja a 200 quilômetros por hora.

O encontro com a arte histórica do Japão, que remonta ao início do feudalismo no século XI, permite detectar correntes diferentes. Há as grandes esculturas e pinturas budistas, evocando as fervorosas manifestações de fé religiosa dos primeiros tempos. Jardins e construções, cuja simplicidade aparente disfarça uma rigorosa disciplina estética, são de inspiração zen, induzindo à meditação e à introspecção. Por sua vez, os grandes castelos rodeados por largos fossos lembram os séculos de dominação do país pelos senhores feudais — os poderosos xoguns que só desapareceram de cena há menos de 200 anos.

Em Kyoto não há grandes castelos, como em Osaka ou Nagoya. Por mais simbólico que fosse o poder dos imperadores da época, os xoguns não poderiam erigir as muralhas de seu poder pessoal na própria capital imperial.

Mas marcaram sua presença, como no encantador Kinkajuji (templo do pavilhão dourado), que foi o refúgio dos últimos anos de vida de um xogun e, após sua morte, um templo zen. O pavilhão é um prédio de três andares, tão leve que parece apenas pousado às margens de um lago pontilhado de graciosas ilhotas. Seus andares superiores são pintados de ouro — mas, curiosamente, o efeito é de beleza sem imponência, em perfeita harmonia com a tranqüilidade dos jardins e do lago, habitado por pequenas tartarugas e carpas — estas, de todas as cores, sempre presentes nos riachos e espelhos de água da paisagem campestre japonesa.

Sanjusangendo é um templo inteiramente diferente. Monumento à fé budista do século XII, abriga, numa única ala, mil e uma estátuas da divindade, em madeira pintada de ouro. Todas são em tamanho natural, exceto uma, central, de mais de três metros de altura. A seus pés, como há 800 anos, fiéis diariamente depositam oferendas e acendem velas e incenso.

O budismo é uma das duas principais religiões do país. Diz-se que, quando um japonês nasce, notifica-se o templo xintoísta; quando ele morre, a cerimônia fúnebre é oficiada por um sacerdote budista. Deve ser verdade: o país tem 115 milhões de habitantes, dos quais 83 milhões são xintoístas — mas quase 80 milhões também afirmam ser budistas. Essa dualidade talvez seja difícil de entender pelos ocidentais; para os japoneses, não se trata de ambivalência, mas de complementação.

A visita aos monumentos históricos — como os de Kyoto e Nara, cidade vizinha que também foi capital — é indispensável para o visitante que busca entender essa civilização milenar, que soube tão bem assimilar tanto a influência chinesa de seus anos de formação como o impacto da civilização ocidental, no século passado e após a Segunda Guerra Mundial. Certamente temos muito que aprender com a sabedoria de vida que emana dessas construções igualmente frágeis e perenes, desses jardins, lagos e riachos em que a natureza foi rearrumada para induzir o homem à contemplação e ao autoconhecimento.

Essa necessidade pedagógica não escapa aos próprios japoneses. Anualmente, no outono, os estudantes secundários, em grupos numerosos, são levados em peregrinação cultural por todo o país. Os rapazes, em seus uniformes pretos de corte militar; as moças, em roupas também escuras, com golas de marinheiro. Os grupos são alegres mas, para olhos ocidentais, quase excessivamente bem comportados. E não se misturam: parecem disciplinadamente conscientes de que estudo e namoros não combinam.

E marcante o contraste entre o Japão do passado — um rígido sistema feudal, deliberadamente fechado a qualquer contato com o mundo exterior — e a sociedade estável e democrática de hoje, altamente industrializada e ativa, participante do comércio internacional.

Em muitos aspectos, o país preserva suas características não ocidentais, e isso não se verifica apenas no cuidado com que mantém vivas as suas tradições culturais, como as do teatro, da música, da culinária (que outro país considera o aspecto visual de um prato tão importante quanto o seu gosto?) e do esporte (com a curiosa exceção do beisebol, importado dos Estados Unidos ao começo do século). Na política e na economia, o modelo ocidental funciona à japonesa — e funciona bem.

Poucos de seus concorrentes entre as nações industrializadas podem se orgulhar dos mesmos índices de qualidade da vida. Na distribuição de renda, na produtividade do trabalho, no nível educacional, na baixa criminalidade, na limpeza das ruas, na estabilidade política — em todos esses pontos o Japão se destaca, numa performance invejável.

Não se deve pretender que a admiração produza a imitação. O chamado “milagre” japonês das últimas décadas tem raízes históricas e culturais que não estão sujeitas a transplante. Mas isso não impede que seja frutífera em alto grau a convivência com o Japão. Sua pobreza em território e em matérias-primas, combinada com a sua riqueza industrial, faz dele o parceiro quase ideal dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, e talvez o seu melhor intermediário no cada vez mais difícil diálogo Norte-Sul.

Poderá ser esse o papel importantíssimo que o futuro reserva para o Japão. Essa é a esperança de todos os que acreditam que não é impossível uma comunidade internacional tão próspera quanto pacífica.

Aqui encerro essa série de impressões de viagem. Não têm elas a pretensão de constituir um aprofundado estudo sobre a realidade japonesa — nem a curta duração da estada o permitiria. No entanto, são observações isentas que, espero, contêm elementos interessantes e mesmos valiosos para a compreensão desse país, tão fascinante quanto complexo.

 

Roberto Marinho. O Globo, 07/11/1982