Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Japão, um parceiro inevitável do Brasil

O Globo, 31/10/1982, p. 3. Arquivo / Agência O GloboTóquio — A primeira impressão do Japão, mistura das informações de segunda mão com as visões iniciais de Tóquio e seus habitantes, é a de um país em ordem. Pouco a pouco, o contato humano permite burilar essa reação. E o visitante descobre que a ordem tem uma característica muito particular: não é aquela imposta de cima, por um regime autoritário, mas a disciplina e a organização voluntárias, nascidas de uma cultura milenar, ocidentalizada apenas na superfície.

Há tanta disciplina no trabalho quanto na composição de um haicai (poema de apenas três versos e de métrica imutável), tanta organização na hierarquia de uma grande empresa como a Sony (com acento na última sílaba) quanto no arranjo de galhos e flores de uma ikebana.

Ao fim de algum tempo, quanto mais se conhece o povo japonês — principalmente quando o visitante tem a oportunidade de trocar idéias com suas figuras mais representativas — chega-se à rara conclusão de que a primeira impressão nada tinha de apressada ou ilusória. Há ordem no Japão — e no bom sentido.

Evidentemente, uma palavra só não explica uma nação, uma cultura. Mas o visitante sensato não pretende explicar o Japão, unicamente senti-lo.

De longe tem-se farta notícia do chamado “milagre japonês”, esse fenômeno de desenvolvimento econômico do qual o mundo tomou conhecimento na década de 60. O “milagre” enfrentou com rara galhardia a crise do petróleo de 1973 e apresenta hoje, em face das atribulações que afligem toda a economia ocidental, pelo menos uma proposta viável de sobrevivência sem cicatrizes permanentes.

O “milagre” continua? Essa pergunta não encontra resposta fácil entre os principais líderes empresariais japoneses, acima de tudo porque eles, sabiamente, não propõem definições metafísicas para o que consideram ser simplesmente o resultado de muito trabalho (particularmente, muita produtividade, o que vem a ser o produto da aplicação da inteligência ao esforço), e de elevado grau de organização na atividade econômica.

Seja como for, há fatores que nada têm de circunstanciais no extraordinário crescimento econômico verificado no Japão após os anos de turbulência política do pós-guerra. Um deles é certamente o entrosamento racional que existe entre capital e trabalho. O empregador japonês dá a seus funcionários segurança, estabilidade e todos os demais estímulos capazes de promover a dedicação e a lealdade. Em troca, recebe de seus subordinados a compreensão de que a prosperidade da empresa e da economia nacional produz a prosperidade dos funcionários e dos cidadãos.

Isto não impede a existência de sindicatos poderosos nem de reivindicações trabalhistas. Greves, embora raras, ocorrem — mas são quase sempre simbólicas, e nunca ameaçam o interesse comum de que a produção se mantenha em alto nível.

Há dias, Yoshihiro Inamaya, presidente da Keidanren (a poderosa corporação empresarial que praticamente regula e impulsiona a iniciativa privada no país), um cavalheiro cujas suavidade e gentileza disfarçam o dinâmico comandante da Nippon Steel, dizia a um visitante que lhe pedia uma explicação para essa extraordinária harmonia entre empregados e patrões:

— Procure falar com Miata. Ele pode explicar tão bem quanto eu.

Referia-se ao mais importante líder sindical do setor siderúrgico. Mas, realmente, quando o dirigente empresarial e o representante do operariado vêem da mesma maneira o sentido das relações entre capital e trabalho, nenhuma explicação adicional é necessária.

No entanto, se algo falta para que o gaijin (estrangeiro) sinta a genuína alegria com que o japonês se dedica ao trabalho, ele poderá ir a um restaurante Ianakaya, fora da rota tradicional dos turistas, onde verá rapazes em roupas típicas de camponeses, gritando em uníssono os pedidos recebidos dos fregueses e as ordens atendidas, num ambiente em que se destacam, pela presença, o entusiasmo e a organização — e, pela ausência, o olho desnecessário do patrão...

Outro fator também permanente é a capacidade de adaptação. Sem abandonar uma só de suas tradições, o japonês parece ter ido buscar na civilização ocidental tudo o que esta lhe poderia dar de útil e conveniente — do campo cultural ao tecnológico — e incluído esse cabedal em sua cultura, sem permitir que esta fosse maculada pela falta de autenticidade em qualquer traço essencial.

São esses elementos imutáveis da economia japonesa que não são afetados ou modificados pelas dificuldades econômicas internacionais, e portanto permitem otimismo em relação ao seu futuro.

Isso não significa ver o Japão de hoje através de um prisma cor-de-rosa. A crise mundial está presente aqui — com tal impacto que é em parte responsável pela renúncia do primeiro-ministro Suzuki. Há inflação — contra a qual a classe empresarial prega um combate enérgico, sem temor de conseqüências recessivas — e há os mesmos sérios problemas financeiros (com exceção da alta taxa de desemprego que aflige os Estados Unidos e outros países), que são comuns à economia ocidental em geral.

Mas o Japão, com sua renda per capita de 18 mil dólares anuais, com seu implacável avanço tecnológico (seus investimentos em pesquisas superaram, em anos recentes, os dos principais países europeus e estão a ponto de se igualar aos dos EUA), apresenta condições únicas de recuperação.

Por todas essas razões, trata-se de parceiro ideal para o Brasil. O interesse pelo estreitamento dos laços entre os dois países é patente entre empresários de todos os setores, particularmente os da área financeira, responsáveis pela crescente participação japonesa em projetos da importância de Carajás e do Cerrado, entre outros.

Homens de visão dos dois países sentem que o caráter complementar em muitos setores das duas economias — de um lado, a tecnologia, o capital; de outro, a matéria-prima, o vasto mercado em potencial — recomenda e torna mesmo inevitável maior aproximação.

O visitante recente, que chega a Tóquio com o espírito isento mas o coração aberto, pode acrescentar que a complementaridade desses dois povos aparentemente tão diversos se estende ainda a um outro campo: o do ânimo pacífico e cordial que domina a forma pela qual japoneses e brasileiros encaram o mundo e o futuro.

 

Roberto Marinho. O Globo, 31/10/1982