Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Por uma verdadeira fraternidade internacional

Agradeço ao Conselho Diretor e membros da Fundação Américas a decisão de me conferir, por unanimidade, o Prêmio Américas 1987.

Na escolha do meu nome, além de uma generosa apreciação de minhas atividades de jornalista e dirigente de um sistema de comunicação de massa, evidencia-se que a vossa atenção está, neste momento, voltada para o Brasil.

Sabeis que o meu país vive um período de transição política, social e econômica. Estamos restaurando plenamente as instituições democráticas. Representantes livremente eleitos pelo povo elaboram uma nova constituição. Simultaneamente, os diversos segmentos da sociedade brasileira discutem um pacto que assegure uma distribuição mais justa da renda. Esses objetivos de justiça social confrontam-se com óbices gerados pela necessidade de conter-se a inflação e, ao mesmo tempo, manter-se uma taxa de crescimento que evite o risco de se agravar o desemprego. Finalmente, diligenciamos compatibilizar essa reestruturação interna da economia, com a exigência de se assegurar saldos na balança comercial, capazes de possibilitar o atendimento de compromissos assumidos com o sistema financeiro mundial.

Não são metas fáceis de se conquistar. Mas a verdade é que na existência das Américas nada foi obtido sem esforço, desde a ocupação dos nossos imensos territórios até a luta pela independência de nossas nações.

Nas últimas décadas, o Brasil, superando crises nos planos interno e internacional, sustentou um ritmo de desenvolvimento que nos tornou a oitava economia do mundo. Implantamos um parque industrial que nos permitiu diversificar as nossas faixas de exportação, com o que deixamos de ser um simples supridor de produtos primários, expandindo a colocação de nossas manufaturas em diversos mercados mundiais. Temos portanto motivos para confiar em que venceremos as nossas atuais dificuldades e daremos cumprimento às tarefas que a história nos impõe.

O território brasileiro corresponde a 6,4% da superfície terrestre, porém a 12% da área habitável. Temos mais de 500 milhões de hectares agriculturáveis e só aproveitamos, até agora, pouco mais de 150 milhões. Existem fronteiras a serem exploradas para satisfazer o mercado interno e ensejar maiores exportações.

Há vinte anos, prevíamos uma população de 200 milhões no ano 2000. Após um decênio, esse cálculo foi refeito para 190 milhões no final do século. Atualmente, com um crescimento demográfico em torno de 2% do ano, a previsão reduziu-se para 170 milhões. Dessa maneira, estamos nos afastando do risco da superpopulação.

Dispomos de unidade nacional em termos de língua, convívio fraternal de raças, liberdade de religião. Em qualquer parte do país, pode-se viver sem constrangimento. O povo tem a mística do progresso. Não há brasileiro que se conforme com uma situação de atraso, pobreza, penúria. Todos exigem emprego, casa própria, uma educação melhor para seus filhos. Essa vontade positiva é que nos anima a promover desenvolvimento, transformando recursos em riquezas.

Esclareço-vos que não estou procurando traçar uma imagem ufanista do meu país. Simplesmente procuro avivar alguns dos seus aspectos característicos para distingui-lo como um núcleo de trabalho que vem realizando nos trópicos uma obra de civilização comparável às que se ergueram em áreas mais favoráveis da Terra.

Muitas vezes os nossos anseios de progresso foram frustrados. Felizmente, porém, as adversidades jamais nos fizeram renunciar à opção por um sistema político aberto e pelo primado da livre iniciativa, baseados na convicção de que a dignidade da pessoa humana é o supremo valor a ser preservado. Em conseqüência, a manutenção da liberdade e a solução pacífica dos conflitos, mediante o apelo ao entendimento e à razão, no âmbito das atividades governamentais e econômicas, constituem preceitos a que temos procurado ser fiéis.

Esses preceitos podem ter sido traídos por eventuais governantes. Mas nunca por nosso povo. Jamais nos conformamos com desvios desses rumos fundamentais. Sempre que ocorreram, empenhamo-nos em corrigi-los. Nisso é que nos identificamos — nós, cidadãos do Brasil — com os cidadãos dos Estados Unidos da América e de todos os países do continente. E acredito que a preservação desse estado de espírito, o fortalecimento dessa convicção, o estímulo aos que se dedicam à defesa desses valores, representam os objetivos essenciais que inspiraram a criação da Fundação Américas.

Encontros como este em que nos decidimos a dar continuidade a um diálogo entre nossas nações, paralelamente aos entendimentos oficiais mantidos por nossos governos, é que deram ao continente americano, ao longo dos séculos, a primazia de demonstrar que não se podem cultuar os princípios da liberdade e da igualdade dissociados do princípio da fraternidade. Só nos convencemos autenticamente de que somos livres e iguais, quando estamos convencidos de que somos irmãos.

Nesse sentido é que desde as formulações da doutrina Monroe e da convocação da I Conferência dos Estados Americanos, ainda no século passado, até o Tratado do Rio de Janeiro de 1947 e subseqüentes proclamações da Organização dos Estados Americanos, sempre ficou consignada a referência à nossa condição de nações irmãs.

Essa condição não pode valer apenas para inspirar manifestações formais de cordialidade, mas acima de tudo para nos permitir falar com a franqueza que não é cabível na linguagem diplomática dos governos.

Convocastes, neste ano, para vos dirigir algumas palavras, um homem de imprensa, ao qual se impõe o atendimento de dois deveres: o de informar com exatidão e o de opinar com isenção. Neste momento, quando as próprias conceituações das ciências naturais e humanas enfrentam uma crise de fundamentação teórica que as obriga a aceitar explicações condicionais da realidade, não é fácil ao jornalista, na sua humilde coleta dos fatos, pretender ser exato. Contudo, nada o impede de ser isento, expondo com lealdade a sua interpretação dos acontecimentos, não só como ocorrências isoladas que se esgotam nos limites de uma reportagem, mas como elos de uma continuidade que lhes transmite o seu mais genuíno sentido.

Sou um crente na solidariedade fundamental entre o Brasil e os Estados Unidos. Devemos reconhecer, porém, que existem não apenas áreas de cooperação que precisamos expandir, como também de conflitos que necessitamos saber compor.

Esses conflitos tendem a se acentuar com o fato de que o sistema econômico e monetário criado em Bretton Woods está-se revelando sem condições de solucionar adequadamente os desequilíbrios que se sucedem a partir da “crise do petróleo” que marcou a década de 70, cujos reflexos vêm colocando freqüentemente os nossos países em posições de divergência. Trata-se de uma situação de antagonismo mais aparente que real, pois ambos concordamos em que se deve dar a essas questões um equacionamento consciente de que nenhuma nação é uma ilha e, portanto, o destino de cada país, rico ou pobre, grande ou pequeno, não se decide simplesmente dentro de suas fronteiras ou de sua área de influência econômica ou estratégica, mas se acha comprometido com o destino de todos os povos.

O presidente José Sarney tem afirmado que “não somos um país de confronto”, acrescentando que não pretendemos “ser uma economia autárquica, fora da comunidade internacional”, insistindo em que “desejamos, sim, uma negociação justa”.

Por seu lado, representantes autorizados do governo americano revelam-se sensíveis à consideração de que, nos ajustes em curso, ao mesmo tempo em que cabe acatar os critérios e análises de entidades eminentemente técnicas como o Fundo Monetário Internacional, há que se exigir que o mesmos não sejam aplicados apenas sobre os países de economia mais frágil.

Não se pode esquecer que a crise de insolvência dos devedores que se desencadeou no início da presente década vinculou-se ao descontrole da taxa internacional de juros ocorrido nos fins da década anterior, com reflexos inflacionários e recessivos nos países industrializados, provocando a queda de receita dos países exportadores de matéria-prima. Naquela ocasião evidenciou-se a dramática carência de uma entidade de nível internacional para a qual se pudesse apelar no sentido de exigir procedimentos mais ortodoxos por parte do sistema financeiro mundial que, dessa maneira, não pode elidir a sua parcela de responsabilidade nos desajustamentos que ora nos afligem.

Atualmente, quando surgem desavenças entre os países desenvolvidos com ameaças de retaliação, assistimos à convocação de reuniões do mais alto nível governamental, ao fim das quais se anuncia a adoção de medidas não apenas de ordem técnica, mas política.

Nessas condições, não parece justificável que os problemas dos países sem poder de retaliação econômica sejam equacionados sob critérios de absoluto rigor ortodoxo, desprezando-se as circunstâncias de natureza social.

Não se trata de propor soluções moralistas para problemas de ordem técnica, mas de se encontrarem fórmulas de composição realista e pragmática para a obtenção de mútuos benefícios.

Tenho sempre em mente que a comunicação não é privilégio do homem. Todos os seres vivos se comunicam. Aquilo que nos caracteriza é a compreensão. Por isso, costumo repetir que não adianta difundir informações se não estivermos dispostos a discuti-las. Utilizando-se a persuasão dos meios de comunicação, reforçada por pressão econômica, pode-se talvez vencer, mas não convencer. O convencimento exige diálogo.

Parece-me que a Fundação Américas tem, mais do que nunca, nesta hora, um papel insubstituível a desempenhar, aperfeiçoando o entendimento entre os nossos povos. Vivemos uma fase de dificuldades que não se resumem nos desequilíbrios monetários e comerciais, ampliando-se com os problemas ecológicos, a escalada armamentista, manifestações terroristas e outras formas de agressão ao direito das pessoas e dos povos, exigindo a implantação de uma nova ordem não apenas econômica, mas jurídica, de âmbito mundial.

Não creio que essa nova ordem deva transformar o mundo numa aldeia global, com a absorção das nacionalidades. Do mesmo modo que, quando uma nação se transforma em Estado, os indivíduos e as famílias não se diluem mas, pelo contrário, adquirem cidadania e direitos específicos, tudo indica que, a partir do momento em que a humanidade consiga se reestruturar politicamente, as nações deverão adquirir direitos próprios e inalienáveis.

Somente uma ordenação que se estabeleça como um encontro de nações que se disponham a se unir, resguardando as suas soberanias contra quaisquer formas de hegemonia ou de imposição de privilégios, poderá atender a esses anseios de nosso tempo.

Não se trata de uma utopia. Há um exemplo histórico de que tal experiência é possível e vale a pena ser tentada. Refiro-me ao encontro dos convencionais que em 1787 promulgaram a Constituição dos Estados Unidos, concretizando o ideal de uma ordem governamental que respeitasse a igualdade entre os Estados na federação e a soberania dos indivíduos contra quaisquer formas de tirania.

Parece-me que essa poderá ser a maior contribuição da América à paz: estimular a que, num dia não muito longínquo, representantes de todas as nações possam se reunir e declarar: “Nós, o povo do mundo, a fim de formar uma união mais perfeita, estabelecer a justiça, assegurar a tranqüilidade interna, prover a defesa comum, promover o bem- estar geral e garantir para nós e para os nossos descendentes os benefícios da liberdade, promulgamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos do Mundo.”

Contribuir para esse ideal, no modesto âmbito das minhas atividades, é a forma que se depara mais adequada de corresponder à honra de ser distinguido com o Prêmio Américas 1987.

 

Roberto Marinho. Discurso no recebimento do Prêmio Américas, 14/10/1987