Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre quatro grandes personalidades brasileiras: Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Luís Carlos Prestes e Jânio Quadros.


A morte de um líder

O Globo, 18/02/1992, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA atuação de Jânio Quadros na história política do país foi e continuará sendo objeto de interpretações contraditórias, a partir da explicação que se atribua ao seu dramático ato de renúncia.

Entretanto, ao tomar conhecimento de sua morte, simultaneamente à tristeza pela perda do amigo, os pensamentos que me ocorreram vincularam-se, não àquele momento de perplexidade, mas acima de tudo ao extraordinário e original papel que desempenhou na vida brasileira.

Como ninguém, ele revelou ao Brasil, pela reação da opinião pública às suas atitudes sempre surpreendentes, os anseios de lideranças com capacidade de comando e decisão para enfrentar as questões nacionais, sem temor de pressões ideológicas ou eleitorais.

A sua coragem cívica, o seu imperturbável espírito de desafio, a sua disposição de assumir responsabilidades encontraram no início de sua carreira até a súbita interrupção e depois, todas as vezes em que a retomou, uma inegável correspondência popular, numa demonstração de que tais qualidades são as de que a nação se acha mais carente no comportamento de seus dirigentes.

Tanto isso é verdade que, agora mesmo, quando o governo reestrutura seus quadros no sentido de assegurar unidade e elevar o padrão de competência ao nível dos problemas que nos afligem, começa a aflorar um novo clima de esperança.

Por outro lado, não há como deixar de registrar que a paisagem política nacional, desde domingo, ficou mais pobre.

A ausência da figura a quem se podia consultar nas horas de crise ou de expectativa de melhoria, para firmar conceitos ou opiniões, obriga-nos nesta hora a procurar relembrar os seus depoimentos sempre que a colaboração de sua palavra e de sua experiência se fazia indispensável.

Ao lamentar o seu afastamento, resta-nos considerar que uma nação que soube compreendê-lo e admirá-lo possui reservas cívicas e morais cuja valia supera a de seus recursos naturais e, por conseguinte, jamais será detida no seu destino de grandeza.

 

Roberto Marinho. O Globo, 18/02/1992