Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre quatro grandes personalidades brasileiras: Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Luís Carlos Prestes e Jânio Quadros.


Tancredo Neves

Tancredo Neves foi eleito para a presidência da República pela maioria incontestável do povo brasileiro, cujo pronunciamento se antecipou ao do Colégio Eleitoral. Houve neste país uma verdadeira eleição direta, sem urnas. Realizou-se nas grandes manifestações populares — as maiores da nossa história —, nos depoimentos das figuras nacionais mais representativas e das diversas entidades de classe, em todos os estados da federação, que se identificaram no propósito de se completar o projeto de abertura numa atmosfera de conciliação e respeito às instituições.

O candidato da Aliança Democrática soube interpretar essa aspiração. Por isso, o povo o elegeu. No dia 15 de janeiro caberá aos 686 congressistas e representantes das assembléias legislativas referendar a vitória imposta pela nação. Não têm sentido, por conseguinte, as sugestões que ainda persistem de se convocar uma eleição imediatamente após a posse do futuro presidente, sob o pretexto de legitimá-la. A legitimidade do processo não é dada somente por sua forma jurídica, mas antes de tudo por sua autenticidade política que, no caso, é indubitável.

Há quem critique a união, em torno da candidatura de Tancredo Neves, das mais diversas correntes políticas do país, inclusive pessoas e movimentos de tendências extremamente antagônicas. Consideram os autores dessas críticas que será impossível conciliar tais divergências doutrinárias ou ideológicas dentro do programa do futuro governo. Esquecem-se também de que essa conjugação de esforços não é resultado de um pacto ou barganha em que se tenha ajustado uma composição de interesses, mas foi determinada pela inequívoca expressão do consenso nacional. Tancredo conseguiu ser o candidato desse consenso. Esperemos que saiba também ser o presidente de todos os brasileiros. Mas essa será outra batalha a ser travada logo depois de 15 de janeiro.

A imprensa teve um papel primordial no processo de abertura desencadeado pelo governo e que o povo recebeu, não como um ato de graça, mas como uma demonstração de senso de oportunidade histórica e confirmação dos ideais de liberdade que nos legaram as gerações que consolidaram a Independência e implantaram a República. Quanto à participação de O Globo, posso apenas dizer que se mantém fiel as diretrizes que adotei desde 1925, quando assumi a responsabilidade do jornal. Sempre considerei que se utilizando a força dos meios de comunicação pode-se talvez vencer, mas não convencer, O convencimento exige diálogo. E este implica consulta à opinião da coletividade.

Por outro lado, tendo em vista que as organizações especializadas nessas pesquisas, em que pese à sua reconhecida idoneidade, são obrigadas a realizá-las dentro de questionários restritos, temos de concluir que a única forma ampla e integral de auscultar a opinião pública, além dos pronunciamentos eleitorais, é se atrever a interpretá-la, é correr o risco de falar em nome dela, é se aventurar a imprimir editoriais e formular inventários, mantendo-se uma linha de coerência e esperando que os índices de venda de exemplares venham afinal a refletir a identificação ou não com o pensamento do homem comum. Evidencia-se assim que, em jornalismo, a eventual verificação de maciça preferência só pode ser obra do povo, sendo inúteis quaisquer manobras para forçá-la ou evitá-la.

No momento atual, O Globo não assumiu compromissos com qualquer candidato. Procura simplesmente ser fiel à vontade popular. No dia do comício da Candelária, eu estava acompanhando pela rede interna da TV Globo os movimentos iniciais da multidão que acorria ao local do encontro. Constatei que não se tratava de uma mobilização artificial de massa, e sim de uma incontrolável caminhada de pessoas das mais diversas classes e idades que vinham menos para ouvir do que para transmitir uma mensagem de liberdade. Realizava-se um comício estranho em que o grande orador era o povo, cuja poderosa manifestação surpreendia os próprios líderes que se acotovelavam no palanque. Como jornalista, não me cabia outra decisão que a de determinar a imediata e ampla cobertura do acontecimento e de todos os comícios que se seguiram. Pareceu-me inadmissível e ridícula a pretensão de se restabelecer a ordem democrática sem a participação popular.

O resto, os leitores de O Globo e os ouvintes e espectadores da Rede Globo de Televisão e do Sistema Globo de Rádio já conhecem.

Roberto Marinho. O Globo, 08/12/1984