Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


A volta aos valores esquecidos

O Globo, 21/09/1990, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO papa João Paulo II não poderia ter escolhido palavras mais duras. Os meios de comunicação, disse ele esta semana em homilia no Vaticano, são hoje utilizados para escravizar a sociedade a formas de comportamento imoral e anticristão. Na mais veemente de suas muitas manifestações sobre a questão, João Paulo II declarou a comunicação de massa como instrumento do pecado. Só no Evangelho, acentuou, estará a salvação desses “grilhões modernos”.

A primeira e indispensável observação a fazer sobre esse pronunciamento da maior autoridade da Igreja católica — e talvez o maior líder espiritual do mundo de hoje — é que seu diagnóstico está correto. Como negá-lo, se a evidência nos é lançada ao rosto, todos os dias, nos espetáculos, na propaganda, na televisão, na imprensa?

Mas não basta concordar em que o processo de corrosão moral está em marcha. Para que a sociedade laica aprenda a se defender, é preciso também refletir sobre as raízes desse fenômeno, característico da segunda metade do século.

De um lado, estão valores que a própria sociedade do ocidente erigiu como necessários à sua própria sobrevivência: são todos aqueles que protegem e dignificam a família, célula da organização social — entre outros, o afeto, a solidariedade, o respeito, a decência. De outro, as forças que, à semelhança de vírus invasores, ameaçam a integridade dessa célula. Têm elas muitos nomes — licenciosidade, desregramento, imoralidade, crasso materialismo — mas um só efeito: a desmoralização, pelo seu desvirtuamento, do sentimento do amor.

Por duas razões essas forças atingiram a dimensão ameaçadora denunciada pelo papa. Os avanços tecnológicos de tal maneira aumentaram o alcance de todas as manifestações de pensamento e procedimentos que o homem moderno simplesmente se viu até agora sem defesa contra seus efeitos. E essa extrema vulnerabilidade que corresponde aos grilhões de que fala João Paulo II.

A permissividade é também um efeito perverso e não desejado da evolução dos regimes políticos. Tornou-se inadmissível — o que, por outras considerações, é avanço que não admite recuo — o controle do Estado sobre a comunicação social. Ou seja: não há mais espaço, porque a própria sociedade democrática não o admite, para qualquer forma de censura estatal.

Em si, os meios de comunicação, que atingem o âmago da família tão facilmente e tão inexoravelmente quanto o ar que se respira, não são entes morais, imorais ou amorais: como armas, seu valor ético depende de quem os usa, e para quê.

Da mesma forma, a história já ensinou que a imposição de controles externos ação desses meios não os aperfeiçoa; ao contrário, estrangula-os, e toda a sociedade perde com isso.

Por outro lado, a desagregação dos costumes que tem no desvirtuamento dos meios de comunicação seu aspecto mais evidente — talvez seja melhor dizer, sua conseqüência mais evidente — não corresponde a qualquer impulso natural e inevitável da sociedade. Esta permanece consciente de que fora da preservação dos valores morais que são o sustentáculo da família não há sobrevivência possível.

O papa, vamos repetir, tem razão. Ele expressa com candente nitidez o que está nos corações e mentes das pessoas de bem, em todas as culturas, em todas as denominações religiosas.

Com sabedoria, João Paulo II não prescreve caminhos, exceto na medida em que alerta os sacerdotes sobre a relevância crescente de sua missão evangélica. Isso em nada exime os meios de comunicação no que se refere às suas responsabilidades éticas e sociais. As palavras do papa devem ser ou- vidas por eles como uma convocação: olhem para o que estão fazendo; reflitam sobre como concessões a apelos fáceis na verdade os afastam perigosamente da sociedade a que devem servir; e integrem-se num esforço deliberado, consciente e intenso, de reaproximação dessa sociedade.

O que só poderão fazer através da retomada dos valores morais que, ainda e sempre, constituem insubstituivelmente a força da família.

 

Roberto Marinho. O Globo, 21/09/1990