Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


Adesão ao ateísmo

O Globo, 20/01/1989, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO cardeal-arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, escreveu uma carta a Fidel Castro, publicada pela imprensa oficial de Cuba, que representa eloqüente demonstração das contradições a que se expõe a chamada Igreja “progressista” — contradições com a história, com a lógica e com a própria missão pastoral.

A propósito do trigésimo aniversário da Revolução cubana, diz a carta: “A fé cristã descobre, nas conquistas da revolução, os sinais do Reino de Deus, que se manifesta em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor.”

É simplesmente inacreditável que um arcebispo descubra semelhanças entre o Reino de Deus e um regime policial-totalitário, no qual o partido único esmaga toda forma de oposição e faz do ateísmo não uma escolha pessoal, mas uma política de Estado — com os atos de perseguição que disso decorrem.

Mais adiante, D. Paulo lamenta que a vitória do PT nas últimas eleições “não significa ainda nossa liberdade’’. A alusão ausência de liberdade no Brasil é, simplesmente, uma calúnia grosseira. De resto, trata-se de involuntária ironia falar de liberdade ao chefe de um regime que proíbe a liberdade de expressão e tem suas prisões cheias de presos políticos.

Finalmente, o cardeal de São Paulo informa: “(...) peço ao Pai que lhe conceda sempre a graça de conduzir os destinos de sua pátria.”

Ao rejeitar, há algumas semanas, um apelo de intelectuais de todo o mundo para que submetesse o seu regime a um plebiscito, Fidel deixou bastante claro que jamais se arriscará ao veredito popular. E com essa atitude, típica dos ditadores que a todo custo se eternizam no poder, que D. Paulo se solidariza abertamente. A afirmação de desamor pela democracia torna-se particularmente merecedora de repúdio pela opinião católica do Brasil ao ser apresentada como tema das orações de um sacerdote.

 

Roberto Marinho. O Globo, 20/01/1989