Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


Canto do galo

O Globo, 27/03/1972, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO semanário O São Paulo, órgão oficial da Cúria Metropolitana distribuído nas igrejas da capital paulista, em seu número de 11 do corrente, publica a íntegra do documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e da Comissão da Pastoral, intitulado “Unidade e Pluralismo na Igreja’’.

Na mesma edição, logo em seguida ao texto episcopal, os leitores são surpreendidos com uma composição gráfica, ocupando toda uma página, em que a sagrada figura de Cristo é representada como a de um terrorista procurado pela polícia.

Temos de convir em que os autores de tal publicação, para identificar o Filho de Deus com o tipo de criminoso mais desalmado dos dias atuais, não podem fugir ao seguinte dilema: ou estão admitindo que Jesus, em sua passagem na terra, teria agido, de fato, como um assaltante, praticando assassínios, raptos, extorsões e violências de toda natureza; ou então consideram que os terroristas não se acham, na verdade, assaltando bancos, desviando aviões, exigindo resgates, mas apenas fazendo uma pregação comparável ao Sermão da Montanha.

A primeira hipótese implicaria a negação dos Evangelhos. A segunda, a negação de tudo aquilo que os órgãos de comunicação estão diariamente registrando.

A fim de disfarçar a manobra, os autores do cartaz enumeraram os “crimes” de Jesus, empregando citações evangélicas que, em sua maioria, são reproduções de versículos de São Lucas, na descrição do julgamento do Filho de Deus, perante Pilatos e Herodes. Esqueceram-se, todavia, de dizer que os próprios acusadores de Jesus (Lucas, 23, 13 e seguintes) não chegaram a Lhe atribuir atos de violência, mas apenas a pregação de idéias contrárias à Lei de Moisés. Distinguiram-n’O, assim, de Barrabás, que se considerava um criminoso comum, “preso por homicídio e sedição”. Desse modo, somos obrigados a concluir que o órgão da Cúria Metropolitana de São Paulo foi além das acusações dos escribas do Evangelho, quando se decidiu a apresentar Cristo com as características de Barrabás.

Mais adiante, ainda no Evangelho de São Lucas, conta- se que no Calvário foram erguidas três cruzes, onde morreram Jesus e dois ladrões. A aceitarem-se os dizeres do cartaz de O São Paulo, a história seria outra, pois teriam morrido três ladrões.

Não podemos conceber a idéia de que o órgão das autoridades eclesiásticas de São Paulo haja decidido praticar conscientemente um sacrilégio de tal natureza. Nem queremos admitir que se trata de uma solerte manifestação de solidariedade aos terroristas.

Exatamente por pensar dessa maneira, mandamos indagar aos responsáveis quais teriam sido os reais motivos daquela iniciativa, tendo sido respondido que se pretendera “atingir aos jovens com uma imagem de Cristo mais próxima, mais fácil de ser compreendida”.

É inacreditável que elementos de responsabilidade da Igreja admitam que a figura ideal, capaz de atrair os anseios e valores da juventude brasileira, seja precisamente a de um marginal. E inconcebível que se pretenda mobilizar a mocidade acenando-lhe com o exemplo de malfeitores. E que tudo isso se faça em nome de Cristo.

Acreditamos que Cristo existiu corno Filho de Deus e seu Corpo Místico permanece vivo, identificado com a Igreja. Cremos que a Graça Divina se transmite através dos sacramentos, pelos sacerdotes, inclusive por aqueles que hoje estão tentando substituir a realidade de Cristo por uma imagem que é a sua própria negação.

Esperamos por isso mesmo que, no transcurso da semana da Paixão, que hoje se inicia, possa repetir-se com os autores do cartaz de O São Paulo o que ocorreu com aquele apóstolo que também renegou o Mestre, até o momento em que ouviu o sinal previsto: “E Pedro se lembrou da palavra do Senhor, que lhe havia dito: antes que o galo cante, me negarás três vezes. E tendo saído para fora, chorou Pedro amargamente.”

 

Roberto Marinho. O Globo, 27/03/1972