Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


O mensageiro da fé

O Globo, 29/06/1983, p. 4. Arquivo / Agência O GloboA cada nova peregrinação de João Paulo II, sinto crescer a figura ímpar desse polonês resoluto, impulsionado pela fé tranquila em Deus e pelo mais puro entendimento de sua missão de continuador da obra do Cristo: levar a todos os homens a mensagem da esperança, da restauração de sua dignidade natural e de sua elevação ao plano da espiritualidade.

Impressionam-me vivamente a extensão e profundidade de seu saber, a força de sua presença, dominada pelo olhar cândido dos abençoados, pela palavra forte e firme dos iluminados e pela postura suave dos humildes.

João Paulo II assumiu, com a totalidade de seu ser, o bastão lançado por João XXIII, seguido por Paulo VI e continuado por João Paulo I, de acorrer ao homem, de pregar a boa nova em toda parte. Encerrou o período do papa recolhido ao Vaticano e voltou ao espírito de Paulo apóstolo, indo a toda gente, para confirmar os irmãos na comunhão e reacender a confiança dos mais necessitados.

A estatura majestosa desse papa, o primeiro a sair da católica Polônia em toda a história da Igreja, emerge de seu conhecimento da vida comum, do operário, do intelectual que foi, de seu gosto pela natureza e pelos esportes, e se engrandece com sua notável capacidade de falar as mais diversas línguas, como que renovando o milagre de Pentecostes.

Para os povos do mundo livre e ainda para aqueles que, subjugados, não renunciaram ao direito de crer, João Paulo II aparece, indiscutivelmente, como a maior personalidade de hoje.

Nele ressoam os anseios de todos os que buscam um mundo melhor. “Consciente da missão universal que me trouxe nestes dias para o meio de vós,” afirmou em sua oração em Salvador, na Bahia, a 7 de Julho de 1980, “tenho o dever de proclamar bem alto a Palavra de Deus: Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores.”

Preocupado com a edificação de um futuro de paz e concórdia que, conforme suas palavras, “somente será garantido quando todos os cidadãos, segundo as próprias responsabilidades (...) souberem criar e manter relações sociais baseadas no respeito do bem comum, que põe no centro de tudo o homem, criatura de Deus”, exclamou nesse mesmo encontro no Brasil: “Que rumo segue o mundo? Para aonde vai? Não vos falo aqui como economista ou sociólogo, mas em forçado mandato e missão de pastor universal daquela Igreja que o meu inesquecível predecessor, Paulo VI, definiu perita em humanidade.”

É nesse mundo, justamente orgulhoso de seu avanço tecnológico, do fantástico salto que deu no conhecimento do universo e da vida, mas perplexo quanto a seu próprio futuro, que se levanta a poderosa voz desse pastor: “Em minhas peregrinações apostólicas pelo mundo,” afirmou no encontro com o presidente Figueiredo em Brasília, a 30 de junho de 1980, “quero também eu, com a ajuda de Deus, ser portador de uma mensagem e colaborar, na parte humilde, mas indispensável que me toca, para que prevaleça no mundo um autêntico sentido do homem, não enclausurado num estreito antropocentrismo, mas aberto para Deus.”

E como o próprio Cristo, Karol Wojtyla, o sucessor de Pedro, conclama todos os homens a se reconsiderarem à luz de sua origem e seu destino superiores.

Jamais esquecerei a comoção que me causou a presença austera, santa e cheia de bondade de Pio XII, quando fui recebido por Sua Santidade no Vaticano. Essa emoção vem se renovando em mim ao contemplar as atitudes, as iniciativas, as peregrinações marcadas pela decisão e pelo destemor, a cumprir o chamamento de Deus, desse autêntico apóstolo, João Paulo II.

Nenhum líder contará em seus registros o número de multidões que o papa atual atrai e seduz com seu verbo inspirado de fé e banhado de amor. Não é preciso ser católico para se deixar impregnar pela luz que emana dessa admirável personalidade do século XX, reflexo, segundo sua expressão, ainda que pálido, do próprio Senhor Jesus.

No dia do papa, festa de São Pedro, movido pela mais sincera reverência, creio interpretar não apenas meu sentimento, mas a convicção da maioria do povo brasileiro, ao realçar na ação de João Paulo II o cumprimento da última ordem de Cristo a seus discípulos: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Marcos, 16,15).

 

 

Roberto Marinho. O Globo, 29/06/1983