Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


Três aves-marias pela Rússia

O teólogo, filósofo e cientista norte-americano padre Theodore Hesburgh, presidente emérito da famosa universidade católica Notre Dame, dos Estados Unidos, em sua passagem pelo Rio, me revelou sua crescente impressão de que a Rússia está se abrindo, não apenas para os valores humanos da espiritualidade, mas para o plano mais alto da religião. Gorbatchev, citou, insiste, antes de tudo, em que não haverá paz onde não houver justiça.

Lembrou a reação do líder soviético que, ao receber o requerimento da Comissão Internacional dos Direitos Humanos pedindo a liberdade de 2 mil presos políticos em instituições psiquiátricas, mandou soltar todos os que se encontravam nessa situação, ou seja, cerca de 50 mil cidadãos. E mais: prometeu propor ao Soviete Supremo a inclusão, na Constituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, de um texto que proíba definitivamente o recurso a tal tipo de punição.

Quanto ao retorno ao culto da fé, contou o padre Hesburgh sua emoção ao ver na capela do Metropolitano de Moscou, onde fora celebrar missa de domingo, a convite desse arcebispo ortodoxo, todos os russos participantes da reunião do dia anterior sobre questões de paz no mundo, inclusive o cientista Andrei Sakharov, que logo depois faleceu. Segundo o padre Hesburgh, que tem tido vários contatos com Mikhail Gorbatchev e com ele se reunirá novamente em fevereiro próximo, o chefe do governo russo não deve ser visto como fenômeno solitário, mas como representação do desabrochar de um sentimento do povo que nem a pregação incessante, nem a perseguição violenta, durante mais de setenta anos, conseguiram desarraigar: a crença no destino sobrenatural do ser humano.

A missão de Gorbatchev transcende a grande Rússia, ao liberar os cidadãos para o exercício de sua dimensão pessoal, de sua dignidade individual, e se difunde por outros países numa nova onda de respeito à liberdade de manifestação. O padre Hesburgh recordou que, há alguns anos, os sacerdotes, ao final da missa, em todo o mundo, rezavam três ave-marias pela conversão da Rússia e indagou: estaria essa conversão acontecendo?

 

Roberto Marinho. O Globo, 09/01/1990