Da oficina à administração, Roberto Marinho conhecia toda a engrenagem do jornal O Globo, sua primeira empresa de comunicação, fundada pelo pai em 1925. Aos 27 anos, assumiu o cargo de diretor-redator-chefe. O Globo, que hoje forma com o Extra e o Expresso a empresa Infoglobo, foi o ponto de partida para o conjunto de empresas denominado Organizações Globo. Uma delas, a TV Globo, inaugurada quando ele tinha 60 anos, deu origem a uma das mais importantes redes de televisão do mundo. 


Na Globo

Apesar dos importantes programas jornalísticos da Globo, sejam os telejornais locais sejam os nacionais, a grande referência para Roberto Marinho era o Jornal Nacional. O  diretor-geral da Rede Globo, Carlos Henrique Schroder, lembra da reação do empresário no dia em que o ministro da Saúde Alceni Guerra deixou o governo Collor, em 1992. “Foi por volta da uma da tarde que ele caiu. Nós demos o plantão e pusemos o material no Jornal Hoje. Dr. Roberto ligou e perguntou: ‘Já demos a informação que o Alceni caiu?’ Eu respondi que tínhamos acabado de dar no jornal do meio-dia. E ele continuou: ‘Ah, no Jornal Nacional do meio dia?’ Ou seja, para ele, era o Jornal Nacional, não importava o momento do dia.”

Alfredo Marsillac, que trabalhou na Globo, contou que certa vez ficou espantado com a disposição física e a paciência de Roberto Marinho com seus colaboradores: “Eu pedi uma dedicatória para ele no livro JN 15 Anos de Notícia. Ele conhecia cada um pelo nome. Ele escreveu, e se formou uma fila de funcionários atrás dele, esperando por uma dedicatória também. E ele ali, em pezinho. Depois de mais de 40 minutos, eu ia pegar uma cadeira, e ele se virou para mim e disse: ‘Não, não precisa, não. Está bom assim.’" 

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni), Daniel Filho e Roberto Marinho observam o Prêmio Iris recebido pelo programa Malu Mulher, da TV Globo, 26/02/1980.  Arquivo/Agência O GloboO ex-vice-presidente de Operações da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, diz que o jornalista estranhava o comportamento liberal de artistas e diretores. Certa vez, reclamou do vaivém de funcionários nos corredores da emissora. “Eu tinha trazido pra a Globo o Daniel Filho, o Roberto Talma. E eles, na época, 1967, eram cabeludos, usavam quimonos, coisas desse tipo. Dr. Roberto me perguntou: ‘O que essas pessoas estão fazendo aqui, de pijama, de bata, todo mundo de sandália?’ E eu disse: 'Dr. Roberto, o trabalho está muito duro, e o pessoal está dormindo aqui. Acordam e vão trabalhar.' Ele disse: ‘Está bom. Mas você acha que isso vai dar certo?’"