Roberto Pisani Marinho nasceu no dia 3 de dezembro de 1904. Foi o primeiro dos cinco filhos do jornalista Irineu Marinho Coelho de Barros e da dona de casa Francisca Pisani Barros Marinho, chamada por todos de D. Chica. Tinha uma admiração incondicional pelo pai, de quem seguiu a profissão de jornalista. Da mãe italiana, herdou o faro e o impulso nos negócios. Pai, avô, bisavô, foi uma referência para os filhos, hoje dirigentes das Organizações Globo que levam adiante o legado deixado pelo empresário. 


Se um dia eu vier a faltar

Charge de Chico Caruso em homenagem a Roberto Marinho, 07/08/2003. Arquivo/Agência O Globo. Roberto Marinho viveu quase 100 anos e não gostava quando o assunto era morte. Roberto Irineu conta que o pai costumava usar a expressão ‘Se um dia eu vier a faltar...’ Aos amigos mais velhos, recomendava o trabalho para enfrentar a velhice e, quem sabe, até a morte, como revelou o ex-assessor Jorge Rodrigues: “Certa ocasião, eu disse para ele: ‘Roberto, fiz 82 anos, vou me aposentar’. Ele, com o dedo na minha cara: 'Se você se aposentar, vai morrer. Você sabe por que eu trabalho assim? Para não ter tempo de envelhecer!'"

 

Roberto Irineu ilustra esse temor do pai com a história da tartaruga, uma brincadeira contata pelos amigos e funcionários. “Alguém levou para ele uma tartaruga. Ele disse: ‘Não, pelo amor de Deus, eu vou me apegar ao bichinho. Depois, ele morre, e como é que vai ser?’ Ele não admitia conversar sobre isso. Dizia que o homem era feito para viver 120 anos. Vivia menos quem não se cuidava, não fazia exercícios, comia bobagens. Ele, como se cuidava, queria viver, no mínimo, 120 anos.”

João Roberto tem a mesma opinião do irmão. A vontade de viver do pai era imensa: “Ele sempre achou que tinha todo o tempo do mundo para fazer tudo o que quisesse. Achava que a vida não ia terminar.”

Roberto Marinho faleceu no dia 6 de agosto de 2003. O corpo foi velado na casa do Cosme Velho. Roberto Irineu acha que o pai poderia ter vivido mais tempo: “Ele morreu de bobagem. Quebrou a perna um ano antes e, na emenda do osso, saiu um trombo. Ele morreu de trombose.”

No último dia de vida, ao lado de Lily Marinho, o imortal da Academia Brasileira de Letras virou-se para o mordomo e disse: “Me tira dessa, Edgar.”

Na edição do Jornal Nacional daquele dia, o jornalista Willian Bonner leu a seguinte carta assinada pelos filhos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto:

"Nesse momento de extrema dor, a manifestação de respeito, carinho e admiração do povo brasileiro pela figura de nosso pai nos comoveu, nos emocionou e nos consolou. A imagem de dois estádios de futebol logo após o anúncio de sua morte, com jogadores, árbitros, dirigentes e, fundamentalmente, o povo prestando um minuto de silêncio é uma cena que guardaremos para sempre em nossa memória. Da mesma forma, foi eloquente o minuto de silêncio que a Câmara dos Deputados também fez em homenagem a Roberto Marinho, interrompendo uma votação importante, envolvendo pontos de uma reforma tão polêmica como a da Previdência. Também as palavras sobre a sua importância, vindas de jornalistas, artistas, escritores, políticos, empresários, esportistas e gente do povo nos tocaram profundamente. Seremos eternamente gratos por estes gestos. Mas mais do que nos consolar, todas essas manifestações reforçaram em nós a convicção de que a morte de Roberto Marinho só aumenta a nossa responsabilidade. Porque deixam claro que o povo brasileiro reconhece espontaneamente não somente a relevância de nosso pai para a vida do país, mas principalmente de sua obra. Uma obra que sempre se pautou pela defesa do patrimônio nacional, da cultura brasileira, e dos valores mais caros ao Brasil.

O povo brasileiro se vê em nossos jornais, rádios, televisão, Internet e na Fundação Roberto Marinho. Porque somos brasileiros trabalhando para brasileiros. Quando hoje avaliamos o legado de nosso pai, temos orgulho de todos os nossos veículos, seja O Globo, onde tudo começou, ou o Extra e o Diário de São Paulo, iniciativas mais recentes, ou o Sistema Globo de Rádio, Editora Globo, a Globosat e a Globo.com porque retratam e defendem o nosso país. A TV Globo é uma emissora com seis horas diárias de jornalismo de qualidade no ar e com uma produção artística genuinamente nacional em volume sem igual no Brasil. É nela que o nosso povo se informa e se diverte, o que a torna um fator importante de integração nacional. Tudo isso demonstra que a obra de nosso pai é uma contribuição decisiva para a manutenção de nossa cultura e para a defesa dos valores democráticos do nosso povo.

A vida de Roberto Marinho foi sem dúvida vitoriosa, e esta é a imagem que o povo brasileiro guarda dele. Mas ele foi vitorioso também porque soube superar uma a uma as crises, algumas graves, que se puseram em seu caminho. Em nosso longo convívio, aprendemos com ele a buscar sempre a verdade, a fazer tudo com a qualidade que o nosso povo exige, e com a ética de que não podem abrir mão os homens de bem. E com ele aprendemos como manter no rumo as empresas vitoriosas que fazem parte das Organizações Globo. Obstáculos virão, mas, como nosso pai, saberemos superá-los. Porque também com ele aprendemos a lição mais importante: a obra de Roberto Marinho partiu de um ideal dele, mas só pôde ser concretizada porque foi o resultado de uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro. Não somente preservar, mas ampliar essa obra é o nosso compromisso. E ela será ampliada não apenas porque este é o nosso desejo, mas porque pretendemos manter intacta esta aliança que a originou. Esta é a nossa intenção, esta é a nossa determinação, este é o nosso compromisso."

Após a morte de Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho passou a ocupar o cargo de presidente das Organizações Globo. João Roberto Marinho assumiu a vice-presidência das Organizações Globo e a presidência do Conselho Editorial. José Roberto Marinho também é vice-presidente das Organizações Globo e presidente da Fundação Roberto Marinho.