“Não sei se sou consequência das minhas qualidades ou dos meus defeitos. As minhas qualidades são conhecidas por poucas pessoas que convivem comigo. E os meus defeitos são apontados por muitas pessoas que me desconhecem. Eu não sei se devo preferir o conceito das pessoas que me desconhecem ou daquelas que convivem comigo. De modo que eu deixo essa questão com a admirável plateia que me escuta.” (Roberto Marinho, em discurso na Universidade Sorbonne, em Paris, França)  


Personalidade

Foram 98 anos de uma vida intensa e saudável quase até o fim. Obcecado pelo trabalho, especialmente pelo jornalismo, Roberto Marinho incentivou a educação e apreciou a cultura como poucos brasileiros. Colecionava obras de arte, gostava de festas, de montar a cavalo, de caça submarina e de ópera. Não frequentava igreja nem campos de futebol, mas era católico e torcia pelo Flamengo.

Roberto Marinho em sua sala na TV Globo, 2003. Dario Zalis/Agência O Globo.Não tinha medo de quase nada. Nem de tubarão. A única exceção era a morte, assunto que não gostava de trazer à tona. João Roberto diz que o pai não admitia a idade verdadeira e conta um episódio que ocorreu durante um jantar em família: “Em determinado momento, ele me perguntou: ‘Quantos anos eu tenho?’ Eu fiquei meio assim, mas falei a verdade: ‘Você tem 94 anos.’ Ele ficou indignado: ‘Você está maluco! Claro que eu não tenho isso tudo.’ E voltou a perguntar: ‘Com quantos anos estou?’ Eu respondi: ‘Papai, você tem 94 anos, sim.’ E ele: ‘Noventa e quatro anos! Onde já se viu?’ Virou-se para a Lily: ‘Lily, quantos anos eu tenho?’ Lily, muito esperta, respondeu: ‘Você tem 84 anos, Roberto.’ Ele olhou para mim e disse: ‘Está vendo?’ Mesmo assim achou muito, não se convenceu, e foi buscar a carteira de identidade. Quando voltou, meio sério, meio rindo, disse: ‘As notícias são devastadoras!’"

Roberto Marinho viveu os seus dias rodeado de amigos, da família e dos companheiros de trabalho, de quem foi um defensor implacável quando as redações eram ameaçadas pela intolerância e pela censura dos governos militares. Enfrentava as dificuldades com otimismo e chegou a ser chamado de louco quando, aos 60 anos, decidiu sozinho criar a TV Globo, hoje uma das maiores empresas de comunicação do mundo.

Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Rede Globo, comenta: ”Era um visionário. Com 60 anos, pensa em construir uma televisão, tendo o jornalismo como ponta de lança. Âncora de um projeto. Dr. Roberto estava sempre querendo entender o que estava acontecendo, para dar a opinião dele. Não eram conversas longas. Era como falar com um parceiro, um amigo, trocando opiniões.”

“As conversas com ele eram como falar com um parceiro, um amigo." (Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Rede Globo)

Armando Nogueira, ex-diretor de Jornalismo da Globo, costumava dizer que Roberto Marinho era o chefe com a maior capacidade de entender o ser humano que ele já tinha conhecido: “A primeira manifestação de sabedoria nele que eu identifiquei em tantos anos de conversa e contato foi a seguinte: ele valorizava muito o fato de, moço, ter sido amigo de pessoas mais velhas. Ele fazia questão de aprender lições de vida com esses amigos. E esse conselho ele me dava: ‘Tenha sempre em volta de você pessoas mais vividas. Eu fiz a minha vida toda assim.’ Dr. Roberto falava muito por parábolas. Era meio ‘budista’ nesse aspecto, meio ‘oriental’. Ele não gostava de falar muito duramente. Só em momentos excepcionais.”

Roberto Marinho e Evandro Carlos de Andrade, sem data. Arquivo/Memória GloboEvandro Carlos de Andrade, ex-diretor de Jornalismo de O Globo e da TV Globo, lembrava que, além de um bom contador de histórias, Roberto Marinho era rigoroso na condução do jornal, mas dava liberdade aos diretores para agir: “Ele não dava a direção política, a diretriz. A gestão dele era o seguinte: se tinha alguma coisa especial, ele dizia: ‘Quero que você vá fazer isso.’ Não sendo, era mais por reclamação. Ele era um grande 'reclamador'. Reclamava muito. Mas era uma pessoa curiosa. Conversava muito. Ele me chamava para a sala dele e conversava horas e horas. Contava histórias da vida dele, do tio, do pai, como é que foi, como o pai morreu, como é que ele fazia, como é que ele trabalhava. Para eu, enfim, ir tendo a percepção das coisas."

Para o amigo e banqueiro José Luiz de Magalhães Lins, homens como Roberto Marinho não existem mais. “Você procura na sociedade e não acha. Conheci muita gente no passado e não tem ninguém que se pareça com ele. Ficava naquela quietude, mas tinha objetivos. Lutava muito para conseguir as coisas. Era determinado.”