Roberto Marinho foi responsável por uma revolução na história da comunicação no país. Ao longo da vida, expandiu os empreendimentos, empregou milhares de trabalhadores e implantou um padrão de qualidade nas empresas baseado na ética e na credibilidade. Tinha orgulho de ser um jornalista, profissão que o levou a criar um grupo de mídia que se tornou defensor da liberdade de expressão, da livre iniciativa e da democracia no Brasil. Não admitia a derrota e só perdeu para a doença que o vitimou perto de completar um século.


Entrevista com Roberto Marinho

Roberto Marinho no gabinete da presidência da TV Globo, década de 80. Arquivo/Memória GloboAvesso a entrevistas, Roberto Marinho se rendeu a uma conversa exclusiva com o editor José Mário Pereira. O depoimento rendeu duas páginas de O Globo, em novembro de 1992. No mesmo ano, editoriais publicados no jornal foram reunidos no livro Uma Trajetória Liberal. Abaixo, seguem trechos da entrevista. 

O senhor gosta de viajar?
Muito. Sempre que posso, viajo. É uma maneira de me reciclar. No meu campo principal de atividades, o progresso tecnológico é muito grande. E eu, que sou obstinado em tudo que faço, me sinto obrigado a acompanhar o que está acontecendo.

O que o senhor viu neste campo, ultimamente, que o impressionou?
Numa feira tecnológica a que compareci em Tóquio, me impressionou um telefone em que é possível se falar com uma pessoa de outra língua, porque o aparelho é também tradutor simultâneo. Ressalto que ele ainda está em fase de pesquisa, mas quando vier para o mercado será, sem sombra de dúvida, um instrumento imprescindível. Também me surpreendi com um piano Yamaha, em que se coloca um disquete e se ouve, como numa sala de concerto, a peça que se quer. Me dei um de presente. Também o vídeo-disco é maravilhoso.

O que o senhor tem visto em vídeo-disco?
O que há de melhor em música clássica, balé e outras artes, já está em vídeo-disco. Tenho uma boa coleção, principalmente Herbert von Karajan, um maestro esplêndido, e que teve a sorte de poder deixar muitas obras gravadas neste instrumento do futuro.

Andar de avião é um esporte que o deixa à vontade?
Meu convívio com o avião não foi um amor à primeira vista: para as grandes distâncias, durante anos, preferi o navio. Com o tempo, me acostumei, e hoje estou inteiramente adaptado. Ando de helicóptero e me sinto seguro. No Brasil, voo pela Líder, companhia que há anos convive muito bem com as minhas empresas.

O que o senhor gosta de fazer dentro de um avião?
Ler, meditar, conversar, às vezes jogar gamão com um amigo. Uma vez fui a Carajás com Eliezer Batista. Foi uma bela viagem: Eliezer é um homem inteligentíssimo, um velho amigo, e sabe contar histórias como ninguém.

Em 1989, a revista francesa Le Figaro dedicou ao senhor uma longa reportagem. Nela o chamavam de “Cidadão Kane do Brasil”. O que achou disso?
A reportagem era simpática, mas a referência, infeliz. O filme de Orson Welles é um dos clássicos da história do cinema, tanto pela ousadia da narração quanto pela técnica inovadora da montagem. Mas o personagem que ele descreve nada tem a ver comigo. São duas trajetórias humanas distintas. Basta ver o filme para comprovar isso.

O que é um bom jornal, Dr. Roberto?
O teatrólogo americano Arthur Miller escreveu certa vez que “um bom jornal é uma nação falando com seus botões”. Eu assinaria essa definição.

E o que faz um grande jornalista?
Clareza de exposição, economia de palavras. Mas, principalmente, apego aos fatos, honestidade e um forte sentido ético.

Roberto Marinho, década de 80.  Arquivo/Memória Globo

O que todo jornalista deveria ler sobre sua profissão?
No momento, me ocorre tudo que escreveu Ruy Barbosa sobre o assunto, em especial A Imprensa e o Dever da Verdade, a conferência de Alceu Amoroso Lima sobre o jornalismo como gênero literário, e uma palestra que Carlos Lacerda fez, em 1949, na ABI, sobre a missão da imprensa. Num plano mais abstrato, penso que deveria ser tarefa obrigatória em qualquer escola de Comunicação o debate e a reflexão sobre um texto do filósofo alemão Kant, cujo título é: Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. Entre outras coisas, está dito ali que aquele que mente, por mais bondade que imprima a esse ato, “deve responder pelas consequências de sua ação”. 

Como age o empresário Roberto Marinho à frente de suas empresas?

Sempre procurei agir com a maior clareza e lisura em tudo que realizei como empresário e como homem. Sou um obcecado pelo trabalho, mantendo ainda hoje a mesma rotina dos meus anos de juventude. Quando decido algo, jamais volto atrás. Isso não significa onipotência, mas apenas quer dizer que tudo que faço é fruto de muita reflexão. No mundo dos negócios, improvisar nem sempre traduz criatividade. Muitas vezes a improvisação é apenas o primeiro ato da tragédia.

O senhor assiste às novelas da Globo?
Procuro acompanhar não só a programação da Globo, mas também a das emissoras concorrentes. Em geral, tomo notas para depois conversar com meus diretores. Houve quem não entendesse a novela Pedra sobre Pedra. Eu gostei muito. Ela conseguiu, com sucesso, tocar tanto nos temas da atualidade quanto mostrar cenas hilariantes, do mais puro surrealismo.

Que atores brasileiros o senhor admira?
Fernanda Montenegro, Grande Otelo, Paulo Gracindo, Lima Duarte e José Lewgoy são grandes atores, versáteis, e que sempre conseguem dar tudo de si em qualquer papel que representam. Mas vejo também que está surgindo uma excelente safra de jovens atores.

Frequentemente acusam o senhor de censurar novelas e programas da Globo. O que tem a dizer a respeito?
Eu sou um democrata, que sempre respeitou a livre expressão do pensamento e das ideias, mesmo quando elas são inteiramente contrárias às minhas. Censura nunca exerci. Mas há anos venho imprimindo no jornal e na TV Globo uma filosofia de clareza e equilíbrio, e quando entendo que houve desvirtuamento da mensagem do autor na adaptação de uma obra, ou que em determinada cena de uma novela ou programa imprimiu-se uma forte carga ideológica em detrimento da informação e do entretenimento, ou que o telespectador está sendo agredido nos seus sentimentos morais e religiosos, convoco uma reunião, exponho os meus pontos de vista, recordo os princípios constitucionais da empresa, e chegamos a um consenso. Os grandes escritores de telenovelas, os melhores redatores, filiados que sejam a qualquer seita ou partido, encontram não só acolhida, mas estão hoje na Globo. Não acredito que estivessem trabalhando comigo se detectassem em mim qualquer instinto policialesco ou de censura.

Vez por outra aparece alguém falando em acabar com a Rede Globo. Como o senhor reage à ideia?
Cada um tem o direito de agir em conformidade com os seus interesses ou convicções. Eu só pediria àquele que se aventurasse nesta empreitada que, antes, examinasse o imenso trabalho comunitário e educacional que não só a TV Globo, mas o jornal, as rádios e a Editora Globo há anos desenvolvem Brasil afora, trabalho esse que vem sendo reconhecido e aplaudido no mundo inteiro. Se, depois disso, este alguém insistisse em seu propósito, me desculpe, mas eu não poderia deixar de considerá-lo um insano.

Fala-se muito em monopólio da Rede Globo. O que é isso?
A Rede Globo é constituída por um time de profissionais de nível internacional e tem uma das melhores programações do mundo. O povo é que liga a televisão na Globo. Ele é livre para escolher e escolhe a nossa emissora. Se há monopólio da Globo, é o da qualidade.

Para muitos o senhor é a própria encarnação da direita brasileira. Como reage a isso?
Em A Rebelião das Massas, Ortega y Gasset diz que “ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil”. Eu também penso assim. A vida inteira fui um democrata que sempre preferiu distinguir os homens pelo seu potencial de criatividade e competência.

De todos os presidentes que conheceu, quem mais o impressionou?
Sem dúvida, o marechal Castelo Branco. De todos os presidentes militares, foi aquele com quem tive mais estreita relação. Era um homem que sabia ouvir, culto, atento aos problemas. Sobretudo, foi um democrata.

Qual a figura que não pode faltar numa lista dos grandes políticos do século?
Winston Churchill. Sempre que posso, releio os discursos dele, a autobiografia, e passagens de sua História da Segunda Guerra Mundial.

A revista Forbes todo ano destaca o senhor na lista dos homens mais ricos do mundo. Como se sente a respeito?
Adquiri cada centavo do que dizem ser uma fortuna com muito suor e trabalho. Nunca fui esbanjador, embora não me considere um avarento. Tudo que ganhei investi nas minhas empresas. Acho que o dinheiro dá conforto, permite ajudar os amigos, mas não é tudo.

Sabe-se que planeja um livro de memórias, que já tem até título, Condenado ao Êxito. Como está ele?
Espero poder ter tempo de escrevê-lo. Mas muito do material já se encontra pesquisado. Seria fácil para mim ditá-lo, usar o gravador, mas não quero fazer isso. Afinal, é o livro da minha vida. Quero escrevê-lo. Desse modo poderei reviver muitos episódios interessantes de que participei, no jornal e na vida.

O atual momento brasileiro o preocupa?
A vida inteira me preocupei com o Brasil. Suponho que meus artigos e editoriais no Globo deixam entrever isso. O Brasil tem uma grande capacidade de se reciclar, de superar crises. Mas, como jornalista, reconheço que o momento é de cautela. Nossos homens públicos têm de pensar no destino nacional e não apenas em projetos pessoais.

O que o Brasil precisa resolver com urgência?
A pobreza que grassa em várias regiões do país, o problema educacional e a questão da violência devem ter uma solução rápida e efetiva.

No entender do senhor, como o país deve se preparar para enfrentar o século XXI?
Acabando com a inflação, integrando a economia brasileira no mundo e resolvendo o problema da dívida externa. Importante também é o investimento na pesquisa científica e tecnológica, fundamental para o bom desempenho de qualquer país no próximo milênio. Cabe aos nossos políticos e governantes uma responsabilidade muito grande nesse sentido, pois é urgente encarar os problemas nacionais com realismo, sem retórica, levando em conta a experiência dos erros e acertos do passado. Estamos obrigados a viver sob o império da lei, da verdade e da eficiência.

Que visão tem o senhor do século XX?
A de um século de várias faces, onde a velocidade e a mudança deram o tom. Nele aconteceram duas guerras mundiais, o fascismo, o nazismo, os campos de concentração e a bomba de Hiroshima. Mas, também, a teoria da relatividade, a teoria quântica, a ida do homem à Lua, a fusão fria, o raio laser, os grandes computadores, a queda do Muro de Berlim e a implosão do marxismo. Se houve Hitler, houve também Gorbatchev. Tivemos Lissenko, mas também Albert Sabin. Vivi todos esses acontecimentos, às vezes com tristeza, às vezes com apreensão, mas sempre com esperança. Para o jornalismo, este tem sido um grande século. Gostaria de assistir à descoberta da cura do câncer.

No plano internacional, o que o senhor tem lido nos jornais que o deixa preocupado?
O conflito na Bósnia-Herzegovina é um episódio lamentável, tanto do ponto de vista humano quanto político. Mas o que tem me entristecido é o que está ocorrendo na Somália, onde um milhão e meio de pessoas correm o risco de morrer de fome. É preciso uma ação urgente dos organismos internacionais competentes para pôr fim a essa tragédia.

E o Rio de Janeiro? Parece ser outra paixão do senhor, não é?
Ah, é. Eu vivi toda a minha vida aqui. Meu pai, que nasceu em Niterói, também. Aqui construí minhas empresas. Aqui nasceram meus filhos. Gosto da cidade, “uma das belas províncias da Terra”. Moro no Cosme Velho e tenho a grata satisfação de poder ver diariamente, da janela do meu escritório na TV Globo, no Jardim Botânico, uma das mais bonitas visões da cidade.

Roberto Marinho, década de 70. Arquivo/Memória Globo

O que o senhor espera do novo prefeito do Rio?
Que saiba perceber e enfrentar os graves problemas que afligem a cidade, que dê assistência à população carente e lute para acabar com a violência. Em suma, que devolva ao Rio a tranquilidade e a eficiência que conseguimos ter durante a Rio-92. E, finalmente, que não caia na tentação da demagogia e das frases de efeito. Enfim, que respeite a população que o elegeu.

Muitos integrantes da Academia Brasileira de Letras não escondem o desejo de vê-lo lá. O que acha da ideia?
Tenho muitos amigos na Academia, a começar pelo Austregésilo, amigo da vida inteira. É comum jornalistas pertencerem à Academia: Elmano Cardim, Assis Chateaubriand e muitos outros foram membros da casa de Machado de Assis. Atualmente, temos lá o Carlos Castello Branco, um exemplo de profissional competente e dedicado. Sei da glória que é pertencer à Academia, mas reconheço que muita gente merece estar lá antes de mim.

Em que projeto o senhor está empenhado no momento?
Em concluir a obra da Globopar, a grande cidade que estou construindo na Barra, que vai gerar 3.500 empregos, reunir a melhor tecnologia de ponta no setor e, principalmente, incrementar a indústria cultural e de serviços do Rio de Janeiro.

O senhor é um otimista, não?
Sempre fui. Creio que, por mais tenebrosa que seja a situação, sempre há uma saída. E isso vale tanto para a vida das nações quanto para a dos homens.

O que abomina ou despreza?
A prepotência, a demagogia e a incompetência.

O senhor tem consciência de que é um homem de poder?
Se for possível conceituar como homem de poder aquele cuja motivação maior e obsessão permanente é o desejo de construir, intervindo civicamente nos acontecimentos, e que nesse intuito não se afasta um milímetro sequer dos seus princípios, então posso ser considerado um homem de poder.

Como se chega aos 87 anos com tanta vitalidade?
Sempre pratiquei esportes. Nunca bebi nem fumei. Na alimentação, sempre me impus limites. Eu acho que é isso.

O senhor acredita em Deus?
Eu sou um homem religioso. Minha relação com Deus é a melhor possível. Ao longo da vida, temos tido muitas conversas.

E a morte, o senhor pensa nela?
Eu sempre vivi muito ocupado para pensar no assunto. Mas ela faz parte da vida.

Dr. Roberto, qual o segredo do seu sucesso?
Trabalho e persistência em levar a termo os meus projetos, e o senso e a intuição dos meus limites. Mas, principalmente, respeito aos valores e ao talento, onde quer que eles estejam.

Há muita mitologia em torno do senhor. Portanto, quem é Roberto Marinho?
Um homem que já teve desafetos, embora não os tenha procurado, e que hoje vive cercado de muita ternura. Alguém que se sente feliz. Enfim, um jornalista e um amigo dos seus amigos.