Roberto Marinho foi responsável por uma revolução na história da comunicação no país. Ao longo da vida, expandiu os empreendimentos, empregou milhares de trabalhadores e implantou um padrão de qualidade nas empresas baseado na ética e na credibilidade. Tinha orgulho de ser um jornalista, profissão que o levou a criar um grupo de mídia que se tornou defensor da liberdade de expressão, da livre iniciativa e da democracia no Brasil. Não admitia a derrota e só perdeu para a doença que o vitimou perto de completar um século.


Luiz Inácio Lula da Silva

A relação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Roberto Marinho nem sempre foi amistosa. Em várias ocasiões, Lula acusou as Organizações Globo de boicotar o Partido dos Trabalhadores. Em carta endereçada ao jornalista, em 1991, o então presidente do PT se mostrou indignado com a ausência de cobertura jornalística do 1º. Congresso Nacional do partido. Já em 1993, Lula escreveu a Roberto Marinho e demonstrou preocupação com a abordagem de repórteres de O Globo a respeito da vida particular dele.

Apesar das divergências políticas, o jornalista Luis Erlanger lembra de um encontro entre os dois que simboliza o reconhecimento de Lula ao papel que Roberto Marinho desempenhava no país. “Lula marcou uma visita ao Dr. Roberto para pedir o apoio da Globo na campanha do impeachment de Collor. Eu era o editor-chefe na ocasião. Toca o telefone, era a dona Ligia, secretária, me passando o Dr. Roberto. 'Eu tenho um encontro marcado com o Lula, e ele trouxe um companheiro. Então, também quero ter um companheiro meu.’ Dr. Roberto sempre se referia à gente como 'companheiro, companheiro, companheiro'. Cheguei lá, estavam Lula, o então deputado Aloizio Mercadante e Dr. Roberto. Acabou o encontro, fizemos a foto. Eu liguei depois para o Dr. Roberto e disse: ‘É o primeiro encontro. A minha sugestão é que fosse um texto-legenda, aquela coisa clássica: ‘Esteve ontem, visitou, conversaram sobre conjuntura política e tal.’ Ele, primeiro, disse: 'Tudo bem.' Depois, me ligou de novo e disse: ‘Eu acho que só um texto-legenda, não, é pouco.' Falei: ‘Tudo bem, Dr. Roberto. Mas de que forma? Uma matéria?’ E ele disse: ‘Conta tudo o que houve.'" 

Luiz Inácio Lula da Silva, Roberto Marinho e Aloizio Mercadante na TV Globo, 1992. Julio César Guimarães/Agência O Globo

Quando houve a polêmica em torno da edição do debate no Jornal Nacional, nas eleições de 1989, Roberto Marinho enviou uma carta à Lula depois de assistir ao candidato do PT mencionar o nome dele, de forma negativa, na discussão com o adversário.

Quando Roberto Marinho faleceu, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi ao velório. Decretou luto oficial por três dias e as bandeiras do Brasil ficaram hasteadas a meio mastro. O então presidente também divulgou uma nota oficial, na qual reconhecia a importância de Roberto Marinho para a nação. “Tem gente que vem ao mundo a passeio, tem gente que vem ao mundo a serviço. Roberto Marinho foi um homem que veio ao mundo a serviço - quase um século de vida de serviços prestados à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil", dizia a nota.