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“Um golpe brutal e inesperado”

“Um golpe brutal e inesperado”

Anotação de Roberto Marinho com suas memórias sobre a morte de Irineu Marinho, p1 | Acervo Roberto Marinho

Anotação de Roberto Marinho, de duas páginas, com suas memórias sobre a morte de Irineu Marinho, sem data

14-08-2019 às 12:00 / Textual

Foi com enorme tristeza que o recém-criado jornal O Globo anunciou a morte de seu fundador, Irineu Marinho, no dia 21 de agosto de 1925. Apenas no seu vigésimo número, a publicação perdia seu editor, seu idealizador e a figura central do que era naquela época uma ambiciosa e arriscada empreitada. Roberto Marinho, então com 20 anos, perdia o pai, descrito por ele como “o maior jornalista do seu tempo”.

Talvez não seja exagero. Irineu parecia, de fato, ter nascido para o jornalismo. Escreveu seus primeiros artigos ainda no Liceu de Humanidades, e, com apenas 16 anos, já contribuía com O Fluminense. Foi revisor e repórter em diversos jornais até fundar A Noite, em 1911. O jornal já gozava de prestígio e reconhecimento público quando Irineu precisou viajar por um ano para a Europa, para tratar problemas de saúde. Na ocasião, vendeu suas ações para um sócio com a promessa de recomprá-las na volta. O sócio jamais cumpriu o acordo, e Irineu perdeu definitivamente seu jornal.

Dessa enorme frustração nasceu a ideia do novo projeto: O Globo. O que ninguém esperava era que Irineu partisse tão cedo. “Um golpe brutal e inesperado”, escreveu Roberto Marinho nesse pequeno fragmento, datado, provavelmente, do final dos anos 1970. Nele, o primogênito de Irineu reflete sobre aquele que foi, certamente, um dos momentos mais difíceis e decisivos de sua vida.

O documento faz parte de uma série de memórias que Roberto Marinho registrou, já próximo dos 80 anos, pensando em publicar sua autobiografia. Nessa altura, a Rede Globo não só já existia, como era líder de audiência, e o jornal, que herdara tão jovem do pai, se estabelecera como um dos maiores do país. Algo, sem dúvida, surpreendente, quando comparado com as circunstâncias descritas na anotação.

Talvez por isso a grande maioria de documentos reunidos para a autobiografia seja dedicada a esse período: da morte de Irineu Marinho, em 1925, quando o próprio Roberto Marinho indicou o jornalista Eurycles de Mattos como sucessor do pai, até 1931, quando assumiu finalmente o cargo de diretor-redator-chefe do jornal. Nada naquele triste momento sugeria o destino bem-sucedido do jornal, muito menos que o negócio se desdobraria em um dos maiores grupos de comunicação do mundo. “O Globo continuará com os filhos de Irineu Marinho, e se Deus quiser, com os netos e bisnetos”, escreveu Roberto Marinho. E assim aconteceu. Como se soubesse que era esse seu destino, como se fosse, de fato, o título que escolhera para sua autobiografia: condenado ao êxito.

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